Priorizar nos meus resultados Google Ler Resumo O livro “O poder da compaixão no ambiente de trabalho”, de Lisa Polloni, aborda a epidemia silenciosa de estresse e esgotamento, e a crise de saúde mental que atinge a todos. No Brasil, a pressão individual por desempenho tem um agravante a mais: a desigualdade no acesso a tratamentos e os desafios do SUS Este resumo foi útil?
Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
Lançado no final da semana passada, o livro O poder da compaixão no ambiente de trabalho (Actual, editora Alta Books), de Lisa Polloni, discute um tema ainda cercado de tabus no mercado de trabalho: a saúde mental e as saídas para a epidemia silenciosa de estresse e esgotamento que não tem poupado literalmente ninguém.
Com formação executiva na Stanford University CCARE e pós-graduação em Psicologia Positiva na PUCRS, a autora sabe, na prática, do que está falando, pois construiu sua carreira ao longo de quase 30 anos liderando equipes e transformando culturas organizacionais. “Pressões que levam potencialmente ao estresse, depressão e burnout fazem parte da própria estrutura do trabalho neste século 21”, diz Lisa Polloni.
“Enquanto no sistema capitalista tradicional nos séculos 19 e 20, vivíamos em uma sociedade disciplinar, em que as hierarquias controlavam as ações dos trabalhadores e exigiam deles os resultados esperados, hoje a pressão vem do próprio indivíduo”, explica a autora, detalhando argumentos apresentados pelo filósofo sul-coreano Byung-Chul Han em seu livro Sociedade do cansaço (Editora Vozes).
Nesse novo cenário, autônomos, freelancers, profissionais liberais e empreendedores enfrentam problemas parecidos com os empregados fixos. Empresários de si mesmos, exercem controle sobre seus desempenhos o tempo todo. E, ao contrário da carga negativa que havia no controle centralizado das empresas antigas, a nova realidade reveste essa pressão de certa positividade, ou seja, uma busca individual incessante por desempenho. E a visão de que tudo é possível para aquele que persiste traz um potencial de frustração, especialmente para os mais desfavorecidos, que vivem à margem e, ainda que doentes, precisam continuar, pois não podem parar.
No livro, com o qual tive o prazer de colaborar, Lisa mostra que a pressão autoimposta pelas pessoas é tamanha que já aparece até refletida nas frases de para-choque de caminhão. Historicamente bem-humoradas ou de certa filosofia de botequim, elas já trazem dizeres como #foconoresultado. Assim mesmo, com hashtag e tudo.
Em sua coluna no jornal Folha de S.Paulo, o economista Michael França, fez uma interessante reflexão sobre o impacto desse adoecimento coletivo sobre a desigualdade. “Quando os recursos internos se tornam tão limitados quanto os externos, a chance de ir além se torna ainda menor para aqueles que perderam na loteria do nascimento”, diz.
Segundo ele, o adoecimento coletivo tem drenado a capacidade de resiliência dos desfavorecidos e a atual crise de saúde mental está tendo fortes repercussões sobre a desigualdade. “O sofrimento se distribui de uma forma desigual. Enquanto algum possuem recursos para anestesiar a dor, os demais a enfrentam sem anestesia alguma.” Para grande parte dos brasileiros, uma simples conversa com um terapeuta é algo muito distante.
A MAIORIA DOS BRASILEIROS DESCONHECE QUE PODE PROCURAR ATENDIMENTO PARA SAÚDE MENTAL NO SUS
Apesar de ser um direito garantido, a falta de informação faz com que muitas pessoas deixem de procurar ajuda especializada. Divulgada em setembro de 2025, como parte das ações da campanha Setembro Amarelo, uma pesquisa nacional sobre saúde mental da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) revelou que quase 70% dos brasileiros não sabem que podem procurar atendimento psiquiátrico gratuito no Sistema Único de Saúde (SUS).
Além do desconhecimento, outro problema é a demora no acesso. Dependendo do lugar e da gravidade do caso, a espera pode variar de dias a anos. No Distrito Federal, por exemplo, o tempo médio de espera para conseguir solicitar atendimento psiquiátrico no SUS é de 1.003 dias, o que significa cerca de 2 anos e 9 meses entre o pedido e a primeira consulta. Os dados foram extraídos do Mapa Social do DF, acessado em 16 de julho.
Um dos avanços que houve nessa área foi a atualização da NR-1 (Norma Regulamentadora nº 1), em maio deste ano, que tornou obrigatória a inclusão dos riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). As empresas devem identificar, avaliar e prevenir fatores como estresse, assédio, violência e sobrecarga de trabalho. Em junho, no entanto, o Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu a aplicação de multas e sanções relativas aos riscos psicossociais da NR-1 por 90 dias.
“Nenhuma estrutura organizacional resiste quando ignora o componente humano que a sustenta. Processos, metas e organogramas são fundamentais, mas equipes emocionalmente exauridas sabotam qualquer tentativa de alta performance”, diz Lisa Polloni em artigo publicado no seu blog.
Segundo ela, o que a NR-1 formaliza agora é algo que muitos gestores já sentiam que precisavam fazer, mas não tinham nome nem estrutura para isso: ver seus colaboradores de verdade, antes de ver os números e resultados financeiros. A maioria dos sinais de sofrimento no trabalho não grita. Sussurra. E a maioria dos gestores está ocupada demais para ouvir sussurros. Ou escolhe não ver e reconhecer.
Segundo dados oficiais do Ministério da Previdência Social, divulgados em janeiro de 2026, o Brasil concedeu mais de meio milhão de afastamentos do trabalho por transtornos mentais e comportamentais. Ou seja, em 2025, 546.254 pessoas adoeceram a ponto de não conseguir trabalhar. Quase dois terços eram mulheres. Ao todo, são mais de R$ 3,5 bilhões só em benefícios do INSS.
Diante dos prejuízos sociais e pessoais da crise de saúde mental no Brasil, não há dúvidas de que é preciso fortalecer com urgência o atendimento psicológico e psiquiátrico no SUS e repensar o trabalho e como nos relacionamos com ele.
