O Brasil está prestes a começar a temporada de plantio, mas produtores como Irineu Orth não têm muito o que comemorar diante do que deve ser um ano recorde para a soja. O motivo é que a crise global na oferta de diesel coincide com o pico sazonal de demanda pelo combustível que move o campo.

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O país é o maior exportador mundial de várias culturas importantes: soja, algodão, café, açúcar e suco de laranja. Para colher tudo isso, o produtor precisa de diesel nos tratores e caminhões. Uma alta nos custos do campo pode se espalhar por cadeias de suprimento no mundo inteiro.

E, como o Brasil é o segundo maior importador de diesel do planeta, atrás apenas da Austrália, o auge do plantio que ajuda a alimentar o mundo deve agravar a escassez global. O país volta a ficar muito dependente das importações dos Estados Unidos. Isso pode se traduzir em preços mais altos ao país liderado por Donald Trump, maior fornecedor mundial do combustível, justamente às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato.

Orth se prepara para plantar cerca de 8.900 hectares, área quase do tamanho do complexo da Disney World.

— Tudo o que a gente faz no campo passa pelo diesel de um jeito ou de outro, e os custos estão devorando a nossa margem — diz o produtor.

A guerra com o Irã embaralhou os mercados globais de energia. Parte do petróleo bruto voltou a sair pelo Estreito de Ormuz, mas os embarques de derivados feitos a partir dele, como o diesel, foram reduzidos a quase nada. Ao mesmo tempo, a Rússia, um dos maiores fornecedores do produto, suspendeu as exportações em meio aos ataques ucranianos a refinarias, apertando ainda mais o mercado.

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A demanda pelo diesel produzido nos Estados Unidos, já em patamar altíssimo, deve subir mais nos próximos meses, quando começa o plantio de soja e algodão no Brasil e os agricultores passam a escoar a safra de milho de inverno recém-colhida. A sobreposição entre plantio e colheita leva o consumo de diesel ao pico, quase 200 mil barris por dia acima do padrão da entressafra.

Em três dos últimos quatro anos, as importações brasileiras de diesel e gasóleo atingiram o topo em setembro, segundo dados da Vortexa, empresa britânica de dados e análise do mercado de energia.

Quem prepara os tratores para o plantio enfrenta agora os maiores preços sazonais do diesel em quatro anos, num momento em que os conflitos internacionais desorganizam as rotas comerciais.

As refinarias americanas, que já responderam por mais de 80% do diesel importado pelo Brasil, viram sua fatia encolher desde o início da guerra da Rússia na Ucrânia, em 2022. Barrado no mercado europeu por causa do conflito, o diesel russo passou a abastecer Turquia, Brasil e países africanos.

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Essa tendência já se inverteu algumas vezes, inclusive neste ano. Em julho, quando a Rússia suspendeu as exportações, o Brasil comprou o maior volume de diesel americano em quase quatro anos, segundo dados alfandegários brasileiros compilados pela Bloomberg. As importações da Rússia caíram mais da metade em relação a maio.

Outros fornecedores que costumavam ter papel secundário, como Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, estão limitados pelo tráfego intermitente no Estreito de Ormuz.

Do lado brasileiro, as refinarias operam de forma "bastante eficiente", perto de 95% de utilização, segundo Susan Bell, vice-presidente sênior de pesquisa de refino da Rystad Energy. Ainda assim, o país precisa importar para dar conta da demanda, e hoje está excepcionalmente dependente do combustível dos EUA.

— Os Estados Unidos não têm mais estoques que permitam cobrir esse buraco — afirma Bell.

Estoques dos EUA no menor nível da história

As refinarias estadunidenses trabalham em ritmo que não se via desde antes da pandemia de Covid-19, com produção de diesel bem acima da média para a época do ano. A margem de lucro do produto está perto do recorde histórico. Já as exportações bateram um novo recorde semanal no começo de agosto. Enquanto isso, os estoques americanos estão no menor nível já registrado para o período, a poucas semanas do início da colheita no país e da formação de estoques de óleo de aquecimento pelas distribuidoras, um produto praticamente intercambiável com o diesel.

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Ou seja, não há alavanca óbvia para aumentar a oferta de forma expressiva.

— Setembro é um dos meses mais fortes do ano. Tem plantio no Hemisfério Sul, colheita no Hemisfério Norte, e a demanda por diesel e outros destilados realmente atinge o pico em outubro — diz Bell.

Neste momento, um pequeno grupo de navios-tanque carregados de combustível segue dos portos do Golfo do México americano para a maior economia da América Latina. Há outras opções de fornecimento. As contas de frete mostram que o diesel de Ulsan, na Coreia do Sul, é hoje a alternativa mais viável para chegar ao porto de Santos, em São Paulo, enquanto a matemática fica menos favorável para os embarques americanos, segundo Nikolas Plonski, analista de mercado de petróleo da Sparta Commodities.

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Mas isso vale só até o fim de outubro. Depois disso, com a demanda ainda aquecida e o plantio brasileiro se estendendo até dezembro, as exportações a partir de Houston voltam a fazer sentido.

Por ora, o mercado global de diesel parece capaz de atravessar o outono do Hemisfério Norte sem chegar a uma crise de verdade, com filas nos postos e destruição generalizada de demanda. Mas esse cenário também não está longe, avalia Bell.

— A gente está meio que no fio da navalha do equilíbrio. Basta uma grande refinaria americana parar de forma não programada — diz a analista.

Produtores como Orth, de 76 anos, dizem que pouco podem fazer para compensar o preço na bomba. Ele terminou a colheita da safra de inverno nesta semana e pretende começar o plantio em sua fazenda na Bahia até meados de setembro.

Magnatas do agro somam R$ 207,7 bilhões em patrimônio, segundo Forbes. Veja top 10 Empresas brasileiras miram projeto de 800 mil hectares de terras agrícolas em Angola — Se tem uma coisa que aprendi desde que dirigi meu primeiro trator, aos 12 anos, é que o produtor precisa seguir em frente. Você faz o que tem que ser feito — afirma.

Ainda que os preços do diesel no Brasil sigam altos, eles recuaram em relação ao pico de março, com as refinarias da Petrobras operando a todo vapor, o que levanta dúvidas sobre por quanto tempo esse ritmo se sustenta, avalia Isabella Chiodi, analista da Energy Aspects, em Houston.

— Se uma das grandes refinarias tivesse uma parada, as importações, especialmente do Golfo do México americano, aumentariam bastante — diz ela.