O Atlas da Violência 2026 registrou que, em 2024, o país chegou ao menor patamar oficial de homicídios desde 1998. Há explicações conhecidas e apresentadas no documento: mudança demográfica, com o envelhecimento da população; qualificação de políticas locais de segurança pública orientada por resultados; e relativa acomodação da guerra entre as maiores facções. Seria imprudente ignorá-las. Mas seria insuficiente não reconhecer o papel da política social.

A criminologia empírica tem insistido numa evidência simples e incômoda: violência letal não nasce apenas da ausência de polícia, mas da acumulação de vulnerabilidades. Renda, desigualdade, escola, trabalho, território e expectativa de futuro e sonhos entram nessa conta. O homicídio é um evento extremo, mas raramente é um raio em céu azul. Amadurece em tempos de tempestade, quando faltam proteção, pertencimento, alternativas e o Estado presente. É nesse ponto que a política social aparece não como simplória, mas ferramenta de redução de crimes, comprovada cientificamente nas metanálises da literatura.

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Em 2002, os programas federais de transferência de renda atendiam, somados, cerca de 6,5 milhões de famílias. Em 2024, o Bolsa Família alcançava 20,8 milhões. No mesmo período, estudos do Ipea (Souza e Hecksher) mostram que a renda domiciliar per capita real cresceu 70%, a desigualdade caiu 16%, e a extrema pobreza encolheu 80%. Os autores registraram ainda que a expansão e o fortalecimento das transferências assistenciais contribuíram decisivamente para a melhora nesses indicadores sociais. Adicionalmente, comparando os Censos Demográficos do IBGE de 2000 e 2022, a taxa de escolarização de jovens entre 15 a 17 anos aumentou 7,9 pontos percentuais, em parte pela expansão do Bolsa Família, que, em 2008, passou a contemplar famílias com jovens de 16 e 17 anos.

Pesquisadores do Banco Mundial e do Insper, com base em métodos robustos de inferência causal, já mostraram que a expansão do Bolsa Família, ao combinar transferência de renda, redução de desigualdade e maior permanência de jovens na escola, contribuiu para reduzir significativamente crimes violentos, inclusive homicídios. Não se trata de atribuir a um programa, sozinho, o mérito por transformação tão complexa. Trata-se de reconhecer que, quando milhões de domicílios deixam a beira do abismo, o mapa da violência também pode se mover.

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Eis o achado mais interessante: uma política desenhada para combater a pobreza produziu, como efeito adicional, uma política de segurança pública silenciosa. Essa conclusão não substitui o trabalho policial qualificado, com investigação, controle de armas, inteligência, enfrentamento ao crime organizado e ao feminicídio ou gestão penitenciária. Nenhum pesquisador sério defenderia isso. Os dados sugerem outra coisa: repressão qualificada e prevenção social não são rivais. São faces complementares da proteção à vida.

O caminho promissor, portanto, não é escolher entre polícia e política social. É fazer as duas coisas melhor, com dados, foco territorial, coordenação federativa e avaliação permanente. A queda histórica dos homicídios talvez esteja nos dizendo que a vida se defende em muitos lugares ao mesmo tempo: no momento dramático em que se impede um crime e, de modo menos visível, quando se impede que a desesperança vire destino e atraia nossos jovens para o mundo do crime e da morte violenta precoce.

*Daniel Cerqueira é pesquisador do Ipea, conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e coordenador do Atlas da Violência