Ler Resumo A transição energética do Brasil ganha escala com financiamentos bilionários, mas esbarra em entraves de infraestrutura e execução de projetos. Em meio à corrida global por segurança econômica e minerais críticos, o país precisa converter seu vasto potencial em ações concretas para não ficar para trás. Uma análise detalhada dos desafios. Este resumo foi útil?
Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
Nas últimas semanas, a escalada da guerra no Irã e a disparada dos preços do petróleo colocaram a transição energética no centro da agenda global. Mais do que uma resposta climática, ela passa a ser também uma questão de segurança econômica. Nesse novo cenário, o debate, que por anos se concentrou na urgência climática e na viabilidade tecnológica das soluções, desloca-se agora para um desafio mais complexo: financiar e construir a infraestrutura necessária para sustentar uma economia de baixo carbono. Nesse contexto, o Brasil atualizou, pela primeira vez em quase duas décadas, seu principal plano de enfrentamento à crise climática. A nova versão, divulgada na segunda-feira 16 de março, reforça o compromisso com a redução de emissões, mas também detalha o esforço necessário para transformar metas em projetos viáveis.
Segundo o Ministério de Minas e Energia, o país pode demandar até 4 trilhões de reais em investimentos em energia e mineração até 2035, de renováveis e hidrogênio verde à expansão das redes elétricas, um volume que coloca o Brasil no coração da disputa global por capital. “A transição energética, isto é, a substituição de fontes fósseis por energias limpas e a eletrificação da economia, já concentra a maior parte do financiamento climático no Brasil”, diz Marta Salomon, especialista em desenvolvimento sustentável do Instituto Talanoa.
A descarbonização começa a ganhar escala com uma arquitetura de financiamento que combina recursos públicos e privados. O principal instrumento é o Fundo Clima, operado pelo BNDES, que desde 2023 mobilizou 52 bilhões de reais para projetos de energia renovável, indústria de baixo carbono, mobilidade sustentável e conservação de florestas. O mecanismo atua por meio de crédito direto, viabilizando iniciativas em diversos setores da economia. Ao mesmo tempo, o governo federal aposta em instrumentos de estímulo, como o Eco Invest Brasil, coordenado pelo Ministério da Fazenda, que utiliza capital público para reduzir riscos e atrair investidores privados, entre eles bancos como Itaú, HSBC e Santander, e que movimentou 53 bilhões de reais em sua rodada mais recente. Esses mecanismos demonstram que o país ampliou sua capacidade de empenhar recursos, mas o enrosco permanece: transformar esse fluxo em projetos concretos, em meio a entraves de infraestrutura e execução. “O problema é tirar os projetos do papel, e nisso o Brasil ainda patina”, afirma Delcio Rodrigues, ambientalista e diretor do instituto ClimaInfo.
A marcha na implementação de projetos torna evidentes os históricos gargalos de infraestrutura. Basta olhar para as ruas de São Paulo e se tem uma amostra do problema. A eletrificação da frota de ônibus na maior cidade do país praticamente travou diante da indefinição de quem arcará com os custos. Os valores elevados começam na compra do veículo elétrico, cuja unidade chega a custar 1 milhão de reais, cinco vezes o preço de um ônibus convencional. Há ainda a necessidade de adaptar a rede e instalar pontos de recarga, o que desencadeou um jogo de empurra entre a prefeitura e a distribuidora de energia Enel. Esses obstáculos refletem entraves que se multiplicam país afora. Só em 2025, cerca de 20% da energia gerada por fontes eólica e solar foi desperdiçada, o equivalente a 6,5 bilhões de reais em perdas, porque não havia linhas de transmissão suficientes para distribuí-la. Como resultado, mais de 500 permissões para projetos solares e eólicos, totalizando cerca de 22 gigawatts de potência, foram canceladas por desenvolvedores que concluíram que, no ambiente atual, não eram técnica nem financeiramente viáveis. “A transição energética cria novas responsabilidades entre poder público, concessionárias e operadores, e hoje essas fronteiras ainda são cinzentas”, afirma Pedro Bastos, especialista em eletromobilidade do Observatório das Metrópoles da UFRJ.
A disputa por matérias-primas estratégicas revela outro desafio do processo. Nesse tabuleiro, o Brasil ocupa uma posição ambígua. O país detém mais de 15% das reservas globais de minerais críticos, como níquel, grafita e terras raras, base material da economia de baixo carbono, mas ainda participa de forma limitada nas etapas de maior valor, como refino e manufatura. Mesmo a exploração segue incipiente — no caso das terras raras, há apenas uma operação relevante em andamento — e a cadeia industrial permanece fragmentada. Enquanto isso, o cenário internacional se reorganiza em ritmo acelerado. A China domina amplamente o setor, concentrando cerca de 70% da produção global e uma fatia ainda maior do processamento, essencial para baterias, motores elétricos e turbinas. Os Estados Unidos tentam reduzir essa dependência com políticas industriais, subsídios e pressão geopolítica para garantir acesso a recursos, em uma agenda que ganhou força no segundo mandato de Donald Trump. A disputa envolve não apenas acesso a reservas, mas domínio tecnológico.
No exterior, a transição avança de forma menos atabalhoada. O Reino Unido, berço da Revolução Industrial movida a carvão, baixou o consumo do combustível ao menor nível desde o século XVII e zerou a geração elétrica a carvão em 2024, após fechar sua última usina, resultado de políticas que combinaram precificação de carbono, expansão acelerada de usinas eólicas e metas ambiciosas de descarbonização. “O Reino Unido provou que é possível eliminar a geração de energia a carvão em uma velocidade sem precedentes”, disse Julia Skorupska, da Powering Past Coal Alliance, ao destacar o papel das políticas públicas na aceleração dessa mudança.
Na Europa, o movimento ganhou impulso com uma nova política industrial voltada à reindustrialização verde, que prevê subsídios para fábricas de baterias, incentivos ao hidrogênio verde, exigências de conteúdo local e metas para descarbonizar setores intensivos em consumo energético, como aço e cimento. Trata-se de uma estratégia que reposiciona a indústria no centro da transição e intensifica a competição global por tecnologia e cadeias produtivas. O contraste com o Brasil é claro: enquanto economias avançadas transformam metas em política industrial, aqui ainda enfrentamos dificuldades para converter nosso potencial em realização efetiva.
Publicado em VEJA, março de 2026, edição VEJA Negócios nº 24
