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4.jul.2026 às 23h00 Edição Impressa Diminuir fonte Aumentar fonte Christian Policeno São Paulo Brasil e Noruega se enfrentam nas oitavas de final da Copa do Mundo em um confronto que já aconteceu quatro vezes antes —com duas vitórias norueguesas e dois empates. Fora de campo, o retrospecto é ainda mais desigual: o pequeno país escandinavo tem um PIB (Produto Interno Bruto) per capita quase nove vezes maior que o brasileiro.

Segundo o FMI (Fundo Monetário Internacional), o PIB norueguês é de US$ 599,41 bilhões, enquanto o do Brasil é de US$ 2,64 trilhões. A diferença de tamanho populacional explica parte da distância, são 5,66 milhões de noruegueses contra 214,08 milhões de brasileiros, uma população mais de 37 vezes maior. O PIB per capita norueguês chega a US$ 105,88 mil, enquanto o brasileiro é de US$ 12,31 mil.

Martin B. Holm, professor de economia da Universidade de Oslo, afirma que os pilares dessa riqueza são, há décadas, o petróleo e o gás natural, responsáveis por cerca de 20% a 25% do PIB do país.

A explicação está na geografia. A Noruega ocupa uma região próxima ao Mar do Norte conhecida como plataforma continental norueguesa, onde uma bacia sedimentar formada ao longo de milhões de anos por decomposição orgânica permite a extração de grandes volumes desses recursos. A Equinor, estatal responsável pela maior parte dessa produção, também atua no Brasil.

"Além disso, o país tem um grande setor de transporte marítimo, aquicultura —especialmente a criação de salmão— uma indústria intensiva em energia, como alumínio e produtos químicos, baseada na eletricidade hidrelétrica, e um amplo setor de serviços ", diz Holm.

A riqueza mineral, porém, não se traduz em gasto imediato. Grande parte da receita obtida com petróleo e gás é destinada a um fundo soberano, criado pelo Norges Bank (banco central norueguês) em 1990. A lógica era simples: evitar que a entrada repentina de dinheiro desequilibrasse a economia nacional.

Hoje, o chamado Fundo Global de Pensões do Governo (ou NBIM) funciona como uma poupança para o futuro, pensada para sustentar as contas públicas quando as reservas de combustíveis fósseis se esgotarem. "O fundo é extremamente importante para a estabilidade econômica e as finanças da Noruega. Graças a ele, as contas públicas estão protegidas para o futuro, sem a necessidade de reformas econômicas tão profundas quanto as realizadas em outros países europeus", explica Holm.

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A Guerra na Ucrânia também favoreceu a economia local. Com o corte no fornecimento de gás russo, a Noruega passou a abastecer boa parte da Europa, ampliando seus ganhos. "Antes do conflito, havia um debate mais intenso no país sobre interromper a abertura de novos campos de exploração por causa das mudanças climáticas. Hoje, a discussão se concentra mais na importância desses recursos para a segurança energética europeia", afirma o economista norueguês.

Para Marco Rocha, professor de economia da Unicamp, o diferencial norueguês não está apenas no subsolo, mas na forma como o país organizou seu desenvolvimento: planejamento estratégico estatal, investimento em tecnologia, qualificação da força de trabalho e forte participação de empresas estatais consolidadas.

"Além de contar com uma força de trabalho qualificada e produtiva, os trabalhadores têm uma negociação salarial coordenada entre sindicatos, empregadores e governo, alta participação feminina no mercado e níveis elevados de confiança social, o que reduz custos de transação na economia", afirma Rocha.

Rocha afirma que as diferenças estruturais entre Brasil e Noruega se diferem em três frentes. A primeira na gestão dos recursos naturais. Ele afirma que os noruegueses concentram e planejam o uso das receitas geradas por setores intensivos em matérias-primas, enquanto o Brasil tem baixa coordenação nesse processo, com maior dependência da exportação de commodities e pouco planejamento para diversificar a economia.

A segunda, no mercado de trabalho. Rocha diz que a Noruega combina negociação coletiva centralizada, baixa informalidade e forte proteção social; já o cenário brasileiro é marcado por informalidade elevada, negociações descentralizadas e menor amparo ao trabalhador.

Por fim, a alta carga tributária norueguesa —acima de 40% do PIB— financia serviços públicos de qualidade, o que legitima a atuação do Estado, segundo Rocha; no Brasil, apesar de haver uma carga tributária elevada, os serviços públicos têm qualidade desigual, o que reduz a capacidade de desenvolvimento, afirma.

Para Rocha, o exemplo norueguês é valioso para países exportadores de commodities, como o Brasil. "A Noruega era uma nação que, até meados do século passado, estava entre as menos desenvolvidas da Europa e conseguiu, por meio de planejamento e instituições sólidas, construir uma trajetória de desenvolvimento com qualidade de vida para sua população", diz o professor.

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