A investigação que aponta a presença do Primeiro Comando da Capital (PCC) em empresas de ônibus de São Paulo e que levou ao pedido de prisão do ex-presidente da Câmara Municipal Milton Leite (União Brasil), também identificou indícios de que a facção buscava ampliar sua atuação para a área da saúde. Segundo documento do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), um dos investigados teria discutido a criação de uma organização não governamental (ONG) como parte de um possível modelo de atuação fora do tráfico de drogas.

O caso aparece em uma decisão judicial de 4 de setembro que autorizou medidas relacionadas à investigação. No documento, a polícia afirma haver “indícios de utilização da área da saúde como outro braço de atuação da organização criminosa”. A apuração, porém, ainda está em andamento e a decisão ressalta que os elementos reunidos até aquele momento não permitem estabelecer responsabilidade criminal definitiva.

De acordo com a investigação, José Daniel Satilite teria mencionado a possibilidade de criação de uma ONG. A partir dessa informação, os investigadores passaram a analisar estruturas já existentes na área da saúde que poderiam, segundo a hipótese policial, servir de referência para um modelo semelhante de atuação.

A suspeita faz parte de uma investigação mais ampla sobre a expansão das atividades atribuídas ao PCC para setores da economia formal e para contratos com o poder público. O documento cita, além do transporte coletivo, empresas, pessoas usadas como intermediárias, contratos públicos e articulações políticas.

A investigação sustenta que a facção teria desenvolvido mecanismos para inserir integrantes ou pessoas próximas em negócios legais e, a partir deles, ampliar sua capacidade de movimentação financeira e influência. Na área da saúde, a hipótese ainda é tratada pelos investigadores como uma linha de apuração, e não como um esquema já comprovado.

O documento judicial destaca que a análise apresentada pela polícia é preliminar e tem como objetivo subsidiar as medidas de investigação.

O principal eixo da investigação é o sistema de transporte. Segundo a polícia, 12 das 22 empresas que operam no sistema de ônibus da capital estariam, “em tese”, sob controle do PCC. A afirmação integra os elementos apresentados ao Judiciário para justificar as medidas adotadas na investigação.

A apuração também identificou suspeitas de interferência em licitações e contratos de transporte em cidades do litoral paulista. Os investigadores apontam a utilização de empresas e pessoas que, segundo a hipótese policial, teriam servido para ocultar os interesses dos integrantes da organização.

A investigação tenta reconstruir como esse modelo teria sido estruturado e se mecanismos semelhantes poderiam ter sido empregados em outros setores.

É nesse contexto que aparece a área da saúde. Para os investigadores, a discussão sobre a criação de uma ONG indicaria uma possível tentativa de reproduzir, no setor, uma forma de atuação semelhante à identificada em outros negócios.

A Operação Vectura Corrupta, realizada pelo Ministério Público e pela Polícia Civil de São Paulo, cumpre mandados de prisão e de busca e apreensão. Entre os alvos, além de Milton Leite, está o ex-presidente da SPTrans Levi de Oliveira.

Até a manhã desta quinta-feira, nove pessoas haviam sido presas. A operação também mira suspeitos de atuar como intermediários da facção em empresas de ônibus e em estruturas ligadas ao poder público. Leite negou ligação com o PCC. Segundo sua defesa, ele pretende se apresentar às autoridades. O GLOBO tenta contato com os outros citados, o espaço segue aberto.