O vazamento dos áudios envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro está produzindo um alvoroço no mundo político e nas tendências eleitorais brasileiras. O episódio pode ter consequências maiores porque toca num dos elementos centrais da política bolsonarista ao longo da última década. A ideia de que a família Bolsonaro representaria uma força “anti-sistema”, hostil às elites tradicionais e que não é parte da “velha política”. Ainda que essa ideia tenha se deteriorado nos últimos anos, a oposição ao PT pelo tema da corrupção era uma retórica demagógica que estava na primeira prateleira da extrema-direita

Escute este artigo Isso porque a evidente proximidade da relação entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro, marcada por expressões como “irmão”, "mermão”, “estou e sempre estarei contigo”, além de convites jantares e encontros, mostra o clã Bolsonaro com relações íntimas com o pivô de um dos maiores escândalos financeiros dos últimos anos.

As dimensões econômicas do caso aprofundam ainda mais o desgaste político. As intenções de repasses que chegariam na casa dos R$134 milhões para o filme Black Horses (Azarão) sobre a vida de Jair Bolsonaro revelou a existência de canais profundos de circulação de recursos entre interesses de grandes grupos empresariais e o projeto de poder da extrema-direita. Algo que não é novo na história, mas que em raros momentos são relevados ao público.

A situação é ainda mais ridícula porque Flávio Bolsonaro havia negado publicamente qualquer relação com Vorcaro em diversas situações. A divulgação dos áudios põe por terra não só a dissimulação, como produz um efeito político particularmente corrosivo numa conjuntura de forte desgaste da credibilidade institucional que atinge diversos setores.

Em sociedades marcadas por elevada desconfiança em relação ao sistema político e suas instituições, a percepção pública de mentira deliberada pode produzir fortes consequências, ainda mais quando se choca com o discurso antissistema que a extrema-direita buscava de alguma maneira seguir sustentando.

Além disso, ao que parece ainda há muito bambu para novas flechadas contra o clã Bolsonaro. A prisão do pai de Vorcaro e as investigações da Polícia Federal sobre possível utilização desses recursos para financiar a permanência e a atuação política de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos mostram isso.

Nesse contexto, começam a surgir fissuras importantes dentro do próprio campo da extrema-direita. A reação rápida de Romeu Zema, buscando distanciamento público e classificando os vazamentos como um “tapa na cara”, expressa o início desse processo, que pode se aprofundar. Indica movimentos preventivos de frações da direita que diante da possibilidade de desgaste acelerado do bolsonarismo tradicional, queiram se afastar ou buscar seu espaço próprio.

Esse processo ganha relevância ainda maior porque ocorreu num momento em que Lula atravessava dificuldades concretas de popularidade. Até poucas semanas atrás, parte significativa das pesquisas mostrava um cenário apertado, inclusive com desempenho melhor de Flávio Bolsonaro em algumas pesquisas. Nessa semana, a pesquisa Genial/Quaest havia sido a primeira a indicar sinais de recuperação do governo, embora ainda num quadro de muitas incertezas.

As dificuldades enfrentadas por Lula se mostravam precisamente em função dos limites de sua estratégia de conciliação de classes. O governo preservou pilares fundamentais das reformas neoliberais implementadas nas últimas décadas, especialmente a reforma trabalhista e a reforma da previdência. Sem mudanças estruturais nas condições materiais da maioria da população, a extrema-direita conseguiu manter elevada capacidade de influência eleitoral mesmo após a derrota de Bolsonaro e sua prisão.

Por outro lado, longe de ser um “pato manco”, como sugeriram alguns analistas, o governo Lula iniciou a implementação de uma série de medidas e intervenções para recompor seus índices de aprovação e perspectivas eleitorais.

Programa Desenrola, subsídio para combustíveis, fim da escala 6x1, revogação da “taxa da blusinha”, plano contra o crime organizado e ainda pode vir mais por aí, com um pacote de 30 bilhões destinados a trabalhadores do transporte por aplicativo, para compra de novos carros. Medidas que podem ter alto impacto social e que as pesquisas ainda não captaram. Mais ainda, a depender de como várias delas sejam sentidas, como por exemplo o fim da escala 6x1, os efeitos seriam ainda maiores.

Nesse cenário, o timing da ofensiva contra Flávio Bolsonaro dificilmente pode ser vista como mera coincidência. A história recente do Brasil demonstra que grandes rearranjos políticos envolveram articulações entre frações internas do regime e interesses do imperialismo, especialmente norte-americano. Por isso, nesse cenário não podemos descartar a hipótese de que em troca da garantia do fornecimento das terras raras, Trump tenha oferecido retribuir em garantias políticas para a reeleição de Lula, inclusive subsidiando ofensivas como os recentes vazamentos.

E a disputa pelas terras raras não é um elemento menor dentro desse contexto. Esses minerais se tornaram centrais para a reorganização contemporânea das cadeias globais de valor, especialmente nos setores de inteligência artificial, semicondutores, baterias, indústria militar e transição energética. O conflito entre Estados Unidos e China possui justamente nesse terreno um de seus principais eixos de disputa.

Além disso, outras questões podem estar dentro dessas coordenadas. O aumento das tensões militares no Oriente Médio e a consequente pressão inflacionária provocada pelo petróleo ampliam a preocupação das grandes potências com questões relativas à estabilidade política e social. Nesse quadro, setores importantes do capital financeiro internacional e do establishment norte-americano podem considerar Lula uma alternativa mais funcional do que uma extrema-direita que já se mostrou muito mais instável para esse tipo de papel. Os grandes capitalistas sabem que pressão inflacionária e subida nos custos da alimentação podem desatar processos profundos de irrupções sociais.

Nesse sentido e como expressão disso, foi muito chamativo que em um evento da gestora Black Rock fechado para investidores em Nova York, Lula foi apresentado como favorito para as eleições, e o nome de Flávio Bolsonaro não tenha sequer sido citado pelos demais participantes. Ou seja, nada menos do que um dos maiores oligopólios imperialistas, estavam tratando a reeleição de Lula como tendência, mesmo no cenário das incertezas que apresentavam as pesquisas.

Ao mesmo tempo, isso não significa uma proximidade ideológica ou um alinhamento permanente desses setores com Lula, mas antes um reconhecimento de sua capacidade relativa de administrar tensões sociais, garantir estabilidade institucional e garantir compromissos econômicos e estratégicos, como o fornecimento de terras raras.

Uma maneira de interpretar esse movimento talvez seja compreender que existe hoje uma espécie de “consenso de Estado” nos Estados Unidos, acima da própria polarização entre trumpistas e democratas. Esse consenso envolveria setores de Wall Street, do aparato de segurança nacional norte-americano e do chamado deep state em torno de um objetivo estratégico central, que é a contenção da China e a reorganização das cadeias globais de produção em favor de cadeias regionais. Em outras palavras, há uma crescente percepção dentro do establishment norte-americano de que determinados setores considerados críticos para a segurança nacional dos EUA, como semicondutores, baterias, minerais estratégicos e insumos ligados à inteligência artificial, precisam ser deslocados para espaços mais seguros dentro das Américas, longe da crescente instabilidade asiática.

Ainda assim, é sempre importante considerar que o imperialismo opera segundo interesses variáveis dentro de um contexto internacional convulsivo. Caso surja uma alternativa de extrema-direita mais disciplinada, mais eficiente eleitoralmente e mais capaz de garantir alinhamento geopolítico, não se pode descartar que o apoio internacional possa mudar de direção.

Devemos também considerar que todos esses movimentos ocorrem em meio ao crescimento de importantes conflitos sociais, que embora com desigualdades regionais, vêm se expressando com particular força no estado de São Paulo. O que não é uma questão menor, tanto por ser o maior colégio eleitoral do país, como por ser o estado governado por Tarcísio de Freitas e desde onde irradia política para outros espectros da direita.

Além do mais, a crise envolvendo a Sabesp e a explosão causada por vazamento de gás recolocou ainda o debate sobre privatizações no centro da cena política, sendo um aspecto central da política de Tarcísio. Após os sucessivos problemas envolvendo a Enel, pode se ampliar a percepção social de que a privatização dos serviços essenciais produziu deterioração estrutural das condições de vida nas cidades e da infraestrutura pública.

Voltando ao caso Master, ele revela, em última instância, a realidade de uma verdadeira república dos banqueiros, com grandes negócios que passam pelo STF, com Alexandre de Moraes e Dias Toffoli sendo os mais comprometidos, passando pelo núcleo duro do bolsonarismo e chegando até a aliados e setores próximos do governo. Daniel Vorcaro representa apenas uma pequena fração do sistema financeiro brasileiro, mas o episódio expõe a forma como interesses privados dos grandes capitalistas organizam e condicionam permanentemente o funcionamento do regime político. São esses setores que estabelecem os contornos concretos das políticas econômicas e sociais, independentemente das alternâncias eleitorais.

Nesse sentido, a aproximação entre Lula e Trump não aponta para qualquer perspectiva real de soberania nacional. As declarações sobre “amor à primeira vista” e suposta sintonia entre ambos revelam, na verdade, a continuidade da inserção subordinada do Brasil na divisão internacional do trabalho. Por isso, a discussão sobre estatização dos bens naturais e no controle das terras raras, do petróleo e empresas estratégicas como a Serra Verde adquire enorme importância política. Sem ruptura com o controle privado e imperialista desses recursos, qualquer discurso de soberania não tem qualquer sustentação na realidade.

Entretanto, Lula já demonstrou que não pretende enfrentar esses interesses. Daí a necessidade de articular as lutas sociais em curso, especialmente em São Paulo, conectando-as às mobilizações nacionais dos trabalhadores da educação, do funcionalismo e dos setores precarizados. Ao mesmo tempo, levantando campanhas concretas e unitárias entre os setores que se dizem de esquerda, como por exemplo “As terras raras são nossas”, poderíamos colocar em movimento uma força social que combata os interesses imperialistas no país, o entreguismo da extrema-direita direita e a política de conciliação do governo de Frente Ampla.

Articulado à isso, é necessário defender um programa para questionar a fundo essa república dos banqueiros, lutando por uma Constituinte Livre e Soberana imposta pela mobilização, onde temas estruturais como dívida pública, controle dos bens naturais, reforma agrária, revogação das privatizações e das reformas neoliberais possam efetivamente ser debatidos. Essa experiência política profunda com esse regime político poderia ser parte das engrenagens que abririam caminho para uma perspectiva de ruptura real com o decadente capitalismo brasileiro. É nesse terreno que poderia emergir uma alternativa efetivamente anticapitalista e socialista para enfrentar um projeto de país onde quem manda são os banqueiros em benefício dos interesses dos grandes imperialistas.

Editor de política nacional e professor de Sociologia