Em alguns casos, as sobretaxas passaram de 100%, chegando a 125% em 2025 sobre produtos americanos como soja, carne suína e gás natural liquefeito.
À primeira vista, parece uma receita pronta: tarifa de um lado, tarifa do outro. Mas a comparação com o Brasil é enganosa.
Análise: EUA arriscam empurrar Brasil na direção da China com tarifaçoAgronegócio brasileiro perde espaço nas exportações aos EUA com tarifasContrapartes americanas ajudam Brasil contra tarifaço, mas com cautela A China conseguiu sustentar essa estratégia porque reúne um arsenal com condições particulares que o Brasil simplesmente não tem. A primeira é escala.
Como maior comprador mundial de commodities agrícolas, Pequim conseguiu substituir boa parte da soja americana pela brasileira sem desabastecer seu mercado.
Quem perdeu espaço foram os produtores dos Estados Unidos; quem ganhou foi justamente o Brasil.
A segunda diferença está na estrutura do comércio. A China importa dos Estados Unidos principalmente commodities que podem ser compradas de outros fornecedores.
Já exporta para os americanos manufaturados de baixo custo, cuja substituição é lenta e cara. Na prática, parte da conta acaba recaindo sobre o consumidor americano.
Há ainda um terceiro fator: o peso do Estado. O governo chinês dispõe de instrumentos para subsidiar empresas, compensar setores afetados e redirecionar investimentos, além de controlar o câmbio e funcionar como uma “holding” do setor produtivo. É uma capacidade de intervenção muito maior do que a disponível no Brasil.
E é justamente aí que mora o problema de uma eventual retaliação brasileira.
A pauta de importações do Brasil é praticamente o inverso da chinesa.
O país compra dos Estados Unidos produtos de alto valor agregado e difíceis de substituir. Entre eles, diesel, fertilizantes, medicamentos, componentes aeronáuticos, máquinas de precisão, equipamentos médicos e semicondutores.
Taxar esses produtos significa encarecer insumos fundamentais para a própria economia brasileira.
O diesel importado, por exemplo, ajuda a abastecer o transporte que leva a produção agrícola aos portos. Se ele fica mais caro, sobe o custo logístico justamente para um agronegócio que já perderia mercado com as tarifas americanas.
Além disso, o possível impacto de uma alta no principal insumo da cadeia logística brasileira, dada a dependência do modal rodoviário, promete impactar ainda mais uma inflação já desancorada, obrigando o Banco Central a manter juros em patamares restritivos — impactando o nível de atividade do país.
O mesmo vale para fertilizantes e defensivos. O Brasil continua dependente das importações para manter sua produção agrícola. Sobretaxá-los seria aumentar o custo da safra nacional. Na indústria, o efeito também seria delicado. A Embraer depende de motores, aviônicos e outros componentes produzidos nos Estados Unidos.
Ou seja, uma retaliação poderia atingir um dos poucos setores brasileiros de alta tecnologia justamente num momento em que a própria Embraer ficou de fora da tarifa americana por causa da interdependência entre as cadeias produtivas.
Há ainda os medicamentos e insumos farmacêuticos. A substituição é lenta, muitas vezes inexistente no curto prazo, com impacto potencial sobre preços e acesso da população.
Tudo isso aumenta o risco de um efeito catastrófico. Em vez de pressionar os Estados Unidos, a retaliação poderia alimentar a inflação brasileira, elevar custos para o agronegócio e para a indústria e dificultar ainda mais o trabalho do Banco Central no controle dos preços.
Além disso, existe uma diferença de poder de barganha. A China representa um mercado consumidor gigantesco. O Brasil, embora relevante, não tem volume de compras suficiente para impor perdas capazes de mudar sozinho a estratégia comercial de Washington.
Além disso, as retaliações aconteceriam no âmbito de uma enfraquecida OMC, a Organização Mundial do Comércio, atravancando processos e permitindo uma resposta mais dura dos Estados Unidos.
No fim das contas, a principal lição da guerra comercial entre Estados Unidos e China é que retaliar só funciona quando há escala e alternativas de fornecimento.
A China tinha essas duas condições. O Brasil, em muitos dos produtos que importa dos Estados Unidos, ainda não. Por isso, copiar a estratégia chinesa pode produzir um resultado oposto: mais custo para a economia brasileira do que pressão efetiva sobre os americanos.
As negociações entre Brasil e Estados Unidos foram contaminadas por aspectos políticos, não técnicos. Se a justificativa norte-americana de recorrer à suposta existência de “práticas anticompetitivas” para punir o Brasil, o país perde uma oportunidade de dar um choque de liberalização em uma economia ainda fechada.
O Brasil impõe barreiras não tarifárias a 86,4% das suas importações, bem acima da média mundial de 72%.É o que mostram dados de um estudo do banco BTG Pactual.
Além da possibilidade de responder de forma técnica, o Brasil perde, respondendo com mais politização uma discussão já contaminada, uma oportunidade de dinamizar sua economia em um momento que Donald Trump atenta contra um mundo globalizado, integrado e de comércio livre.
