Lula venceu a eleição, cenário para a qual o mercado financeiro não estava preparado. Os investidores apostavam na vitória de Flávio Bolsonaro e na possibilidade de uma mudança na condução da economia.

A reversão dessa expectativa deve provocar um ajuste duro nos preços, com pressão sobre o dólar, os juros e a Bolsa. Mesmo com a disputa mais apertada na reta final, muitos mantiveram suas posições na troca de governo.

Há uma razão para essa reação, além da surpresa. A reeleição é interpretada como a continuidade de uma política econômica marcada pela expansão dos gastos, pelo esforço de elevar a arrecadação e pela dificuldade de conter o avanço da dívida pública. O receio é que o próximo mandato prolongue esse desequilíbrio.

Real despenca frente ao dólar após reeleição de LulaEWZ: Principal ETF do Brasil em NY cai mais de 19% após reeleição de LulaIIF sugere novo regime fiscal no Brasil com meta de 75% para a dívida bruta A vitória também carrega um recado que Lula precisa compreender. A mobilização popular na reta final mostrou a força de um eleitorado que viu nele uma alternativa melhor que o adversário. Esse apoio será importante para um presidente que encontrará um Congresso mais à direita, com forte presença do PL e pouca disposição para facilitar sua agenda.

Mas o apoio das ruas, embora dê força política, não resolve sozinho os obstáculos para governar. Lula precisará negociar com o Congresso e reconstruir a confiança de quem financia o Estado. Sem isso, terá mais dificuldade para entregar justamente o que seus eleitores esperam: renda, emprego e melhores condições de vida.

Quanto maior a desconfiança sobre o futuro das contas, maior tende a ser a remuneração exigida para emprestar ao governo.

Essa conta chega à população. Juros mais altos encarecem o crédito, adiam investimentos e comprometem o crescimento. Também aumentam a despesa do próprio governo com a dívida, reduzindo o espaço para outras prioridades. A deterioração da confiança pode, assim, enfraquecer a capacidade de atender às demandas que ajudaram a reelegê-lo.

Lula precisa apresentar uma resposta concreta. Uma âncora fiscal mais transparente e crível, com regras que permitam enxergar como o governo pretende estabilizar a dívida.

E um ajuste que dependa menos de sucessivas iniciativas para aumentar a arrecadação, pressionando empresas e contribuintes, e inclua medidas para desacelerar as despesas.

Parte desse esforço precisa ser entregue de imediato. Promessas de equilíbrio ao longo do mandato terão pouco efeito se não vierem acompanhadas de decisões, prazos e apoio político para executá-las. Antes de reduzir a dívida em relação ao PIB, será necessário convencer de que existe um caminho consistente para interromper sua alta.

Esse respaldo passa por reconhecer que os juros elevados também refletem o excesso de gastos e a desconfiança fiscal. A política monetária responde à inflação e a vários outros fatores, inclusive externos.

Mas negar a contribuição das contas públicas para o custo do dinheiro dificulta a construção de uma saída. Em um ambiente internacional de financiamento mais caro, os erros domésticos pesam ainda mais.

Há também uma tarefa política urgente: pacificar o ambiente depois de uma eleição acirrada, agravada pela controvérsia sobre a prorrogação da votação. O país precisa de clareza sobre os acontecimentos, respeito ao resultado e disposição para retomar o funcionamento das instituições.

Um conflito prolongado acrescentaria risco a uma situação econômica que já exige cuidado.

Dificilmente os primeiros gestos serão suficientes para evitar uma reação muito negativa dos mercados. Desta vez, Lula terá menos espaço para pedir um voto de confiança antes de mostrar o que pretende fazer.

Ainda assim, suas escolhas podem definir quanto tempo a turbulência vai durar. A mobilização que o levou à vitória expressa uma expectativa de governo melhor.

Para atendê-la, Lula precisará combinar a legitimidade conquistada nas urnas com uma política econômica capaz de recuperar a confiança, sustentar o investimento e financiar as prioridades da população.