O transplante é um procedimento indicado quando um órgão ou tecido apresenta comprometimento grave e outros tratamentos já não são suficientes para preservar a vida ou recuperar determinada função. Rins, fígado, coração, pulmões, pâncreas e córneas estão entre os órgãos e tecidos que podem ser transplantados, de acordo com a condição clínica do paciente e com critérios técnicos definidos pelas equipes responsáveis.
Embora muitas pessoas relacionem o assunto apenas ao ambiente hospitalar, a necessidade de um transplante pode modificar profundamente o cotidiano de pacientes, familiares e trabalhadores. Consultas frequentes, exames, internações, tratamentos como a hemodiálise e períodos de afastamento profissional podem fazer parte da rotina de quem aguarda um órgão. Além do impacto físico, a espera costuma provocar insegurança, desgaste emocional e mudanças na organização financeira e familiar.
Nesse contexto, a prevenção e o acompanhamento adequado de doenças crônicas também merecem atenção. Controlar a pressão arterial e o diabetes, evitar o consumo de tabaco, moderar a ingestão de bebidas alcoólicas, praticar atividade física, manter uma alimentação equilibrada e realizar consultas periódicas são medidas que ajudam a proteger órgãos como, por exemplo. rins, coração e fígado. Embora esses cuidados não impeçam todas as condições que podem levar a um transplante, contribuem para reduzir riscos evitáveis e favorecer o diagnóstico precoce.
Ao mesmo tempo, ampliar o número de transplantes depende da identificação dos potenciais doadores, da existência de equipes e estruturas adequadas, da agilidade no transporte dos órgãos e, principalmente, da autorização familiar. No Brasil, manifestar em vida o desejo de ser doador não é suficiente para garantir a doação após a morte. Mesmo tendo a intenção de doação manifestada, após a morte, os médicos confirmam com os familiares a doação ou não. Por isso, conversar claramente com familiares é uma das atitudes mais importantes para que essa vontade seja conhecida e respeitada.
O Setembro Verde, que tem como marco o Dia Nacional da Doação de Órgãos, celebrado em 27 de setembro, reforça a importância desse diálogo. A reportagem apresentada a seguir mostra que o País recuperou sua capacidade de realizar transplantes após os efeitos da pandemia e alcançou um resultado histórico, mas ainda precisa enfrentar obstáculos antigos para transformar potenciais doações em novas oportunidades de vida para muitos.
Brasil registra recorde de transplantes após pandemia, mesmo com velhos problemas
Estagiária sob supervisão de Ferraz Junior e Gabriel Soares
Especialistas apontam que, apesar dos investimentos públicos e avanços tecnológicos, a recusa familiar e a falta de estrutura ainda limitam o acesso aos procedimentos
Mesmo com o recorde de transplantes, cerca de 45% das famílias ainda recusam a doação de órgãos
O Brasil alcançou, em 2025, um marco histórico na saúde pública ao realizar mais de 31 mil transplantes, o maior número já registrado no País. Entre os procedimentos, o transplante de córnea liderou as estatísticas, com mais de 17 mil cirurgias realizadas. Os números refletem a recuperação do Sistema Nacional de Transplantes (SNT) após os impactos provocados pela pandemia de covid-19 e os investimentos realizados nos últimos anos para ampliar a captação de órgãos, fortalecer as equipes e aprimorar a logística de distribuição em todo o território nacional. Apesar do avanço, velhos problemas ainda atrapalham.
Segundo o professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP e líder do Núcleo de Pesquisa em Fisiopatologia Ocular, Eduardo Melani Rocha, a pandemia provocou uma interrupção quase completa dos transplantes de córnea no País. “Nos anos da pandemia, principalmente em 2020, o número de doações, e consequentemente de transplantes de córnea, foi reduzido a quase zero. Havia o desconhecimento inicial sobre a possibilidade de transmissão da covid-19 para pacientes receptores e também para as equipes de saúde.”
O pesquisador explica que a retomada ocorreu de forma gradual e exigiu um grande esforço conjunto das equipes médicas e dos gestores públicos. “A recuperação foi lenta, gerando um enorme esforço das equipes e do governo para suprir a demanda reprimida. A fila também aumentou por causa do período parado. Houve demanda reprimida, aumento natural da demanda e um esforço para responder a esses problemas, o que acabou resultando nesse bom desempenho observado em 2025.”
Além da reorganização do sistema, o avanço tecnológico também contribuiu para ampliar o número de procedimentos. De acordo com Rocha, novas técnicas cirúrgicas permitiram tornar o transplante mais seguro e menos invasivo. “A tecnologia que permite fazer um transplante apenas da camada da córnea que está doente abreviou o tempo de cirurgia e também a recuperação pós-operatória. Isso encorajou médicos e pacientes a recorrerem a essa forma de tratamento para recuperar a visão.”
Na avaliação do médico intensivista e coordenador da Organização de Procura de Órgãos (OPO), complexo do Hospital das Clínicas da FMRP (HCFMRP-USP), Marcelo Bonvento, o desempenho histórico registrado em 2025 também é resultado da capacidade de resposta do sistema público brasileiro. “O sistema brasileiro de transplantes é extremamente ativo. Ele conta com profissionais e equipes que trabalham 24 horas por dia, garantindo assistência e apoio logístico para que os transplantes aconteçam.”
Segundo Bonvento, ainda durante a pandemia, o Sistema Nacional de Transplantes optou por manter os programas em funcionamento, diferentemente do que ocorreu em diversos países. “A recomendação foi que os transplantes fossem minimizados, mas não interrompidos. Essa estratégia foi fundamental para que o sistema pudesse se recuperar rapidamente e alcançar os resultados que vemos hoje.”
Apesar do recorde, especialistas alertam que o sistema ainda enfrenta obstáculos importantes. Entre eles estão a elevada recusa familiar à doação de órgãos e tecidos e as desigualdades na oferta de bancos de olhos entre as diferentes regiões brasileiras.
Mesmo com os avanços, a recusa familiar ainda representa o principal desafio para ampliar o número de transplantes no País. Segundo Bonvento, cerca de 45% das famílias recusam a doação de órgãos. “Essa ainda é a nossa maior limitação. Precisamos sensibilizar a população, discutir o tema e mostrar o impacto que um transplante pode ter na vida de quem está esperando.”
O especialista destaca que o Brasil possui o maior sistema público de transplantes do mundo e reforça que conversar sobre doação ainda em vida é fundamental. “A chance de uma pessoa precisar de um transplante é cinco vezes maior do que a possibilidade de se tornar um doador. Por isso, é importante conversar com a família e deixar claro esse desejo. No momento da decisão é ela quem poderá autorizar a doação”, explica Bonvento.
Segundo Eduardo Melani Rocha, grandes centros urbanos ainda não possuem estrutura suficiente para realizar a captação de córneas. Além disso, o curto intervalo entre o óbito e a retirada do tecido torna essencial que a decisão da família seja rápida. “Uma pessoa, seja criança, adulta ou idosa, independentemente da causa da morte, pode doar as córneas e recuperar a visão de pelo menos duas outras pessoas. Mas essa decisão precisa acontecer em menos de 12 horas.”
Para reduzir as filas de espera, Rocha defende investimentos em três frentes principais: ampliar o funcionamento dos bancos de olhos, melhorar a logística de transporte de córneas entre diferentes regiões e fortalecer as equipes responsáveis pela captação. “É importante capacitar e incentivar essas equipes para que haja menos rotatividade profissional e mais valorização dessa atividade.”
https://jornal.usp.br/atualidades/brasil-registra-recorde-de-transplantes-apos-pandemia-mesmo-com-velhos-problemas/
• Ministério da Saúde. Campanha de Doação de Órgãos. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/campanhas-da-saude/2024/doacao-de-orgaos
• Ministério da Saúde. Campanha de doação de órgãos e tecidos alerta para a necessidade de diálogo sobre o assunto. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2024/setembro/campanha-de-doacao-de-orgaos-e-tecidos-alerta-para-a-necessidade-de-dialogo-sobre-o-assunto
• Ministério da Saúde. Com mais de 14 mil transplantes no primeiro semestre, SUS bate novo recorde em 2024. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2024/setembro/com-mais-de-14-mil-transplantes-no-primeiro-semestre-sus-bate-novo-recorde-em-2024



