A experiência mostrou que essas convicções econômicas perderam para as convicções políticas do ex-presidente. Bolsonaro resistiu a privatizações, interferiu em estatais quando decisões contrariaram seus interesses e, no fim do mandato, o governo praticamente acabou com o teto de gastos para ampliar despesas. É uma experiência que torna inevitável a pergunta sobre o quanto de autonomia a equipe econômica teria num eventual governo de Flávio Bolsonaro.

É nesse contexto que a entrevista de Marcelo Kayath ao Hora H se insere. Ele não se apresenta como candidato a nenhum cargo, diz que seria especulação, mas descreve o modelo que considera correto em caso de vitória de Flávio: agenda definida, equipe técnica sem estrelismos e articulação política funcionando em equilíbrio.

Pix ultrapassa 1 bilhão de chaves cadastradas em setembro, aponta BCSTF exclui créditos de ICMS da base de cálculo do PIS e da CofinsReceita Federal envia cartas a quase 500 mil contribuintes na malha fina A referência de Kayath é o governo Michel Temer. O economista lembra que, naquele momento, diziam ser impossível aprovar uma agenda de reorganização econômica, mas ela acabou avançando pela política.

Uma diferença importante, segundo Kayath, é que o cenário atual é ainda mais duro e complexo para o Brasil. Não só pela situação das contas públicas, mas porque o mundo não tem mais os juros próximos de zero de alguns anos atrás, o que dificulta a vida dos países emergentes.

Kayath defende uma espécie de honestidade intelectual sobre o Brasil. Evita a expressão "ajuste fiscal" e prefere falar em uma "parada de arrumação", ou choque de gestão com medidas "cirúrgicas". Na política monetária, Kayath conta com a reação positiva do mercado, já em curso, abrindo espaço para corte de juros.

A articulação política aparece como peça central na visão do economista que foi diretor do Credit Suisse. Kayath rejeita a ideia de dar uma "prensa" no Congresso, numa referência à declaração de Paulo Guedes antes mesmo de assumir o cargo. Mas ressalva que um Congresso mais alinhado não seria garantia de aprovação das medidas.

Ele também rejeita a figura do "Posto Ipiranga", apelido de Guedes dado por Jair Bolsonaro. Na visão de Kayath, o ministro não pode ser um economista genial que concentra todas as respostas.

Os interlocutores de Flávio Bolsonaro estão fazendo um esforço para se apresentar e falar de economia. Faltam os detalhes. Kayath disse que o momento de apresentar as medidas vai chegar.

Mesmo gostando da ideia de troca de poder, muita gente no mercado continua questionando: quais gastos serão cortados? Quanto será economizado? Que reformas serão propostas? E, sobretudo, como garantir que as convicções da equipe econômica prevaleçam quando entrarem em choque com as convicções políticas do presidente? Por enquanto, a convicção mais comum no mercado é apenas não querer mais quatro anos de Lula.