O mês de julho, período de férias escolares, tem registrado um aumento significativo no número de faltas de idosos a consultas e exames médicos. Especialistas da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) apontam que, embora não haja um levantamento nacional consolidado, estudos amostrais indicam que o absenteísmo, que normalmente varia entre 20% e 30%, pode alcançar quase 40% em julho. Esse aumento representa um crescimento de 25% a 50% em relação ao padrão habitual, com cidades como São Paulo observando elevações de até 30% nas faltas durante este período.

O principal fator para essa tendência, segundo o médico geriatra Eduardo Canteiro Cruz, diretor administrativo da SBGG, não é o clima de inverno, mas sim o papel dos avós como rede de apoio para as famílias durante as férias escolares. Muitos avós acabam priorizando o cuidado com os netos, adiando compromissos médicos e de saúde importantes para si mesmos. "Eles acabam priorizando o cuidado com os netos e adiando necessidades importantes relacionadas à própria saúde", explica Cruz.

As consequências do adiamento de acompanhamentos médicos podem ser graves. Especialistas alertam que faltar a uma consulta não se resume a perder um horário agendado; pode resultar em atrasos no diagnóstico de doenças, interrupção de tratamentos essenciais e comprometimento de processos de reabilitação. Para condições como o câncer, por exemplo, a ausência em consultas significa assumir um risco maior para o próprio tratamento. Adicionalmente, do ponto de vista do sistema de saúde público, esses recursos deixam de ser utilizados, em um cenário de alta demanda e oferta limitada.

A terapeuta ocupacional Elcyana Bezerra Carvalho, conselheira da SBGG no Ceará, ressalta que a "avosidade" e a convivência com os netos trazem benefícios emocionais, mas o problema surge quando essa dedicação se transforma em responsabilidade diária, substituindo os próprios cuidados com a saúde. O desafio é encontrar um equilíbrio: incentivar os laços familiares e a criação de memórias afetivas, sem que isso signifique negligenciar atividades físicas, descanso, participação social e, fundamentalmente, o acompanhamento médico necessário para garantir qualidade de vida e um envelhecimento saudável.