Em um cenário global marcado pela crescente fragmentação geopolítica e pela interdependência econômica, Brasil, Canadá, Quênia e o Conselho Europeu anunciaram em setembro a iniciativa "Partners for Multilateralism" (Parceiros pelo Multilateralismo). O movimento visa renovar o compromisso com a cooperação internacional, reunindo nações de diferentes regiões para enfrentar desafios comuns e fortalecer o sistema multilateral.

A iniciativa surge em resposta a duas questões centrais: a divisão geopolítica em um mundo cada vez mais conectado e a necessidade de reformar as instituições multilaterais para torná-las mais representativas e eficazes. A pandemia e conflitos recentes evidenciaram as fragilidades das cadeias globais de produção, enquanto a disputa entre China e Estados Unidos intensificou o uso do comércio e dos investimentos como ferramentas de poder.

Nesse contexto, estratégias como o "friendshoring" e o "nearshoring", que buscam concentrar cadeias produtivas em países aliados ou vizinhos, ganham força. Embora visem a segurança nacional e a resiliência econômica, essas práticas podem levar à redução de mercados, duplicação de esforços e menor disseminação de conhecimento, além de comprometer a capacidade de resposta coletiva a desafios globais, como as mudanças climáticas. "Um mundo de fortalezas será mais pobre, mais frágil e menos sustentável", alertou Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá.

Para países emergentes como o Brasil, a exposição a esses riscos é particularmente acentuada, dada a dependência de relações comerciais e investimentos diversificados. Assim, a manutenção de uma postura de não subordinação e não alinhamento a blocos hegemônicos torna-se essencial. Defender o multilateralismo, portanto, não se resume a preservar as instituições existentes, mas a reformá-las ativamente, garantindo que elas reflitam os interesses e a soberania de todas as nações, especialmente as emergentes, que precisam ocupar os espaços multilaterais para defender seus projetos.