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26.jun.2026 às 13h00 Diminuir fonte Aumentar fonte Ouvir o texto Victoria Damasceno Pequim O Brasil segue os passos da China para aprofundar estratégias de desdolarização em meio aos riscos financeiros que países de todo o globo sofrem devido ao uso do dólar como instrumento de pressão, estratégia aprofundada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

O objetivo é ter fontes de renda, assim como financiar e liquidar valores, em moedas alternativas, para diminuir vulnerabilidades diante da dependência da moeda americana.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, entregou nesta quinta-feira (25) ao presidente do Banco Popular da China, Pan Gongsheng, uma carta de intenção para a venda de títulos em yuan chinês, os chamados "panda bonds". A cerimônia, ocorrida em Pequim, formaliza a iniciativa brasileira, que agora depende da aprovação final das autoridades chinesas.

Por meio de uma rodada de investimentos, o Tesouro Nacional poderá vender títulos a interessados chineses, que farão toda a transação, assim como o recolhimento dos juros, na moeda chinesa. A transação será a primeira do tipo de um país latino-americano e terá como objetivo captar cerca de 5 bilhões de yuans.

Tanto a China quanto o Brasil afirmam que a estratégia não tem como objetivo fazer frente aos Estados Unidos, mas se trata de uma ação de soberania dos países.

Durante a passagem por Pequim, Durigan declarou que "não faz sentido ceder a esse tipo de constrangimento" imposto por Washington.

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"Não acho que estamos sob pressão nenhuma, a gente está fazendo todo um debate, temos participado de todas as conversas com os EUA, explicando os mais variados temas e seguiremos fazendo isso. O Brasil é um país soberano que emitiu título na Europa, e agora vem à China fazer a emissão", disse.

Durigan relembrou a operação de abril, quando o país fez a maior emissão de papéis nacionais em uma rodada da história brasileira, captando 5 bilhões de euros (R$ 30 bilhões).

A emissão do "panda bond" brasileiro foi coordenada pelo Bank of China no Brasil, que atua junto ao governo e a empresas para facilitar as trocas em yuan. Hsia Hua Sheng, vice-presidente do Bank of China no Brasil, afirma que o renminbi (nome oficial da moeda chinesa) é popular no comércio internacional, mas ainda não ameaça o uso do dólar.

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"É uma moeda mais estável, menos volátil, com custo de transação cada vez menor e, mais importante, por trás da moeda chinesa há uma das cadeias de suprimentos mais completas do mundo. Compra-se qualquer mercadoria usando o renminbi", disse ele à Folha após participar do Fórum de Finanças Verdes em Xangai, organizado em parceria com a comitiva da Fazenda.

Um dos pontos de dúvida sobre a desdolarização é até que ponto os países conseguem usar moedas alternativas em momentos em que o dólar estiver fortalecido. Uma projeção do banco central chinês afirma que a emissão de panda bonds deve atingir recorde em 2026 —especialistas em investimentos, porém, afirmam que a marca é reflexo da desvalorização do dólar.

Fazer com que moedas locais se tornem preferenciais, portanto, leva tempo, segundo Sheng, que também é docente na FGV (Fundação Getulio Vargas).

"O dólar é hoje uma referência no apreçamento da maioria dos ativos do mundo. Mas isso não quer dizer que precisamos de dólar para fazer compras", afirma. "À medida que esse volume de troca direta de moeda local aumenta, gradualmente o mercado de câmbio pode funcionar sem essa indexação [pelo dólar]."

Na época, Alencastro afirmou que a emissão dos papeis é uma prioridade do governo e uma estratégia para a diversificação da dívida.

Na mesma semana, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, visitava Xangai para uma reunião com o chefe do Banco Popular da China, na qual também trataram dos títulos brasileiros. Segundo a instituição financeira chinesa, investimentos bilaterais e pagamentos transfronteiriços também fizeram parte da pauta, sugerindo uma aceleração na proposta de utilização das moedas locais para transações entre os países.

As transações que utilizam o yuan chinês ainda são poucas frente àquelas que têm o dólar como referência, mas representam um esforço dos países em favor da redução da dependência da moeda americana, segundo o economista Bruno De Conti, professor na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

O docente afirma que isso não será suficiente para desbancar a hegemonia do dólar, mas que os movimentos evidenciam a necessidade de diferentes países ampliarem a diversificação de suas transações.

"São movimentos que têm de ser observados por nós, que mostram que há uma certa desconfiança em relação à maneira como os Estados Unidos têm regido o dólar, a tal da ‘weaponization’ do dólar", diz o economista, referindo-se à expressão em inglês que indica o uso da moeda americana como instrumento de pressão.

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