O Brasil está passando por uma acelerada transição demográfica, com a população idosa dobrando em poucas décadas. Estimativas apontam que, em 2050, mais de 65 milhões de brasileiros terão 60 anos ou mais, representando cerca de 30% do total. Esse envelhecimento, que ocorre em velocidade superior à de países desenvolvidos, demanda adaptações rápidas e profundas no sistema de saúde.

Essa mudança populacional impacta diretamente o perfil de adoecimento que chega aos serviços de saúde. O geriatra Leonardo Oliva, presidente da SBGG, explica que o sistema, tradicionalmente preparado para enfrentar doenças agudas e infecciosas, precisa agora direcionar seu foco para o manejo de doenças crônicas, dependência funcional e incapacidades. A expectativa é de um aumento expressivo em condições como hipertensão, diabetes, câncer, doenças cardiovasculares e demências, com muitos idosos convivendo com múltiplas comorbidades.

Diante desse cenário, especialistas como o médico Rafael Herrera Ornelas defendem a migração de um modelo de saúde reativo para um modelo proativo. A estratégia envolve a identificação precoce de riscos, o acompanhamento contínuo dos pacientes e a intervenção antes que as complicações se agudizem. Atualmente, mais de 80% dos idosos dependem do SUS, o que gera uma pressão significativa sobre o sistema. O epidemiologista Alexandre Kalache ressalta que o aumento de custos não se dá apenas pelo número de idosos, mas pela forma como envelhecem, muitas vezes com doenças preveníveis e incapacidades acumuladas.

A preparação para o envelhecimento populacional vai além da infraestrutura, exigindo ações de prevenção e promoção da saúde ao longo da vida. A atenção primária, especialmente por meio das Unidades Básicas de Saúde (UBSs), é apontada como a principal ferramenta para organizar o cuidado contínuo e próximo da comunidade. O Ministério da Saúde, por meio da Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa (PNSPI), busca promover a autonomia e a capacidade funcional, incorporando ferramentas como o Índice de Vulnerabilidade Clínica de Fragilidade (IVCF-20) para identificar riscos precocemente e agir antes que a fragilidade gere crises e internações.