A situação fiscal do Brasil se destaca negativamente entre as maiores economias emergentes, conforme análise de Marcos Troyjo, ex-presidente do Banco dos Brics. Enquanto países como Polônia, Índia e Indonésia exibem trajetórias de estabilidade, redução ou alta gradual na relação dívida/PIB, o Brasil é o único entre os 10 maiores do grupo a registrar uma "alta significativa" neste indicador. A dívida bruta brasileira, após uma queda no final de 2022, voltou a subir em 2023, atingindo 81,9% do PIB em junho de 2026, um aumento superior a 10 pontos percentuais.

Troyjo aponta que o Brasil enfrenta uma combinação particularmente preocupante de elevado endividamento, alto custo de financiamento e despesas substanciais com juros. Essa conjuntura encarece o financiamento e refinanciamento das obrigações governamentais, desviando recursos que poderiam ser destinados a investimentos e outras despesas essenciais. A situação se agrava pelo "custo de carregamento" da dívida, que consome uma parcela maior do orçamento público.

A comparação com a China ilustra a vulnerabilidade brasileira. Embora a China possua uma dívida/PIB maior, seu custo de financiamento é consideravelmente inferior. Isso demonstra que o volume da dívida, isoladamente, não é o único fator de risco fiscal. No Brasil, a elevada taxa de juros real encarece o serviço da dívida, tornando-a menos administrável e aumentando a pressão sobre as contas públicas.

Para reverter essa trajetória, Troyjo enfatiza a necessidade de uma sinalização política clara e de longo prazo sobre o compromisso com o controle de despesas e a reforma do Estado. Sem essa confiança, os investidores podem exigir retornos mais altos para financiar a dívida brasileira, o que eleva os juros e prejudica a atividade econômica. A perspectiva de "o que as pessoas acham que ela será" tem um peso fundamental na percepção de risco e na dinâmica econômica do país.