Antes da 26ª Conferência Internacional de Aids (AIDS 2026) encerrar no Rio de Janeiro, uma notícia sintetizou um dos maiores paradoxos da resposta global ao HIV. O Ministério da Saúde confirmou que não chegou a um acordo com a Gilead para incorporar o lenacapavir ao Sistema Único de Saúde (SUS) como PrEP de longa duração. A negociação fracassou justamente no momento em que o mundo celebra uma das tecnologias mais promissoras para a prevenção do HIV.
O Brasil sediou a principal conferência mundial sobre HIV, reuniu milhares de pesquisadores, ativistas e gestores públicos e reafirmou seu protagonismo histórico na resposta à epidemia. Mas, ao final da semana, o país — e, com ele, toda a América Latina — sai sem acesso à inovação que promete revolucionar a prevenção entre as populações mais vulnerabilizadas.
Segundo o diretor do Departamento de HIV, Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis (Dathi), Draurio Barreira, o governo ofereceu US$ 400 por pessoa ao ano pela tecnologia. A proposta foi aceita por outra farmacêutica, mas recusada pela Gilead. O resultado é que o lenacapavir permanece distante da população brasileira, enquanto países de alta renda avançam em sua implementação.
A situação remete, inevitavelmente, a outro momento da história do SUS.
Em julho de 2015, também durante o lançamento de uma nova política pública, o Ministério da Saúde anunciava a incorporação dos antivirais de ação direta para hepatite C. Na época, sob a direção de Fábio Mesquita no então Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais, o governo conseguiu negociar reduções superiores a 90% no preço dos medicamentos e trouxe ao SUS o tratamento mais moderno disponível no mundo.
A decisão colocou o Brasil entre os primeiros países em desenvolvimento a oferecer a nova terapia de forma universal. Mais de 30 mil pessoas seriam beneficiadas apenas no primeiro ano, ampliando o acesso justamente para pacientes que, até então, tinham poucas alternativas terapêuticas.
A diferença entre os dois momentos vai além da comparação entre medicamentos.
Em 2015, o Brasil exerceu seu peso político para enfrentar interesses econômicos e ampliar direitos. A negociação foi conduzida como uma política de Estado. O acesso veio antes do mercado.
Em 2026, apesar do reconhecimento internacional do SUS e do discurso de prioridade às populações mais vulnerabilizadas, o desfecho é outro. O país encerra a maior conferência de HIV do planeta sem garantir acesso à principal inovação da década. Para pessoas trans, travestis, profissionais do sexo, jovens negros, populações periféricas e tantos outros grupos que enfrentam maiores barreiras de acesso à PrEP oral, a tecnologia continua sendo apenas uma promessa.
É evidente que parte da responsabilidade está na política de preços da indústria farmacêutica. Quando medicamentos desenvolvidos com ampla participação científica internacional permanecem inacessíveis para países de renda média, a lógica comercial se sobrepõe ao direito à saúde.
Mas também é legítimo questionar se o Brasil perdeu parte de sua capacidade histórica de negociação.
O próprio Draurio Barreira afirmou que gostaria de ter firmado um acordo ainda em 2025 e reconheceu que o país poderia estar hoje na vanguarda da implantação dessas novas tecnologias. Essa constatação evidencia que, embora exista compromisso técnico e político com a incorporação, o resultado concreto ficou aquém do esperado.
Talvez a maior tristeza dessa história seja justamente esta: a América Latina continua produzindo ciência, formando pesquisadores, participando de ensaios clínicos, sediando conferências internacionais e oferecendo ao mundo exemplos de políticas públicas. Mas, quando chega a hora de transformar inovação em acesso, continua ocupando a fila de espera.
O Brasil já demonstrou que é possível negociar com firmeza, enfrentar interesses econômicos e colocar vidas em primeiro lugar. Fez isso com os antirretrovirais. Fez isso com a hepatite C.
A pergunta que fica ao final da AIDS 2026 não é apenas por que o lenacapavir ainda não chegou ao SUS.
É por que um país que já foi referência mundial no acesso a medicamentos inovadores parece ter deixado de liderar justamente quando o mundo mais precisava dessa liderança.
