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16.mai.2026 às 23h00 Edição Impressa Diminuir fonte Aumentar fonte Ouvir o texto Gabriel Gama São Paulo O Dia Mundial da Reciclagem é celebrado neste domingo (17), mas o Brasil tem pouco a comemorar: apenas 1,3% dos materiais consumidos internamente são reutilizados, enquanto a média global é de 6,9% de reaproveitamento.
É o que aponta o relatório Circularity Gap Report, produzido pela organização internacional Circular Economy e pela consultoria Deloitte. A Folha teve acesso exclusivo ao recorte brasileiro do estudo, que detalha pela primeira vez o quanto o país está distante da economia circular, sistema em que objetos descartados deixam de virar lixo e são transformados em novos produtos.
A economia brasileira segue o modelo linear, de produção, uso e descarte: 98,7% dos recursos retirados do meio ambiente são consumidos uma única vez e acabam se tornando resíduos.
Maria Emília Peres, sócia de estratégia em sustentabilidade da Deloitte Brasil, afirma que o quadro se deve ao perfil extrativista do país, baseado em mineração, agropecuária e construção civil —setores que consomem grandes volumes de materiais com baixo aproveitamento posterior. "Não é um problema de comportamento individual, é um problema de arquitetura econômica", diz.
O Brasil extraiu 5,2 bilhões de toneladas de matéria-prima virgem em 2023, sendo que 4,1 bilhões de toneladas foram consumidas internamente e o restante foi exportado.
Da pequena parcela de materiais reaproveitados, apenas 3,7% vêm do tratamento de resíduos domésticos. Atividades de construção e demolição estão ligadas a 48,2% dos itens reciclados, e subprodutos industriais e agrícolas respondem por 48,1% do total.
Os números mostram que o reúso se concentra na cadeia produtiva, como o cascalho que volta para uma obra e o bagaço de cana-de-açúcar que vira energia, e não na gestão do lixo, diz Peres. "A circularidade que temos é quase acidental, não sistêmica."
Em média, cada brasileiro consome 19,8 toneladas de recursos naturais por ano, acima do patamar global, de 12,6 toneladas por pessoa, e mais que o dobro do nível sustentável, de 8 toneladas anuais.
As nações em desenvolvimento tendem a consumir menos, mas os dados mostram que o Brasil consome muito e reaproveita pouco, afirma Peres. "Isso quebra um certo conforto narrativo de que 'somos menos culpados porque somos menos desenvolvidos'. Não somos."
O índice de circularidade olha para ciclo completo: quanto material entra na economia, quanto é reaproveitado e em que qualidade. Já os indicadores de reciclagem consideram apenas o volume do resíduo gerado que volta ao processo.
"Um país pode reciclar bem e ainda assim ter uma economia altamente linear se continuar extraindo recursos em ritmo insustentável. O Brasil é um exemplo disso", afirma Peres.
O relatório nacional calcula que 608 milhões de toneladas de resíduos foram geradas em 2023. Porém, apenas 43,5 milhões de toneladas, ou 7,2%, foram recicladas.
Cerca de 262 milhões de toneladas, ou 43%, tiveram destinação inadequada, como lixões, ou sequer tiveram coleta, aumentando o risco de contaminação ambiental. Por outro lado, 302,2 milhões de toneladas (49,7%) foram direcionadas a aterros.
As organizações reconhecem o trabalho dos catadores e o alto nível de reciclagem de alguns materiais, como latinhas de alumínio (97%) e papelão (67%), mas afirmam que há ineficiência na gestão dos resíduos do país.
A biomassa representa 57,1% dos recursos extraídos, com 2,9 bilhões de toneladas, sendo que 2,6 bilhões de toneladas permanecem no mercado interno para atender à demanda por alimentos, ração animal e combustíveis, principalmente etanol.
Recursos minerais não metálicos, como areia, cascalho, calcário e argila, respondem por 23,3% do total explorado, ou 1,2 bilhão de toneladas, e abastecem a construção civil.
A mineração equivale a 16,1% dos recursos extraídos anualmente, sendo 560,9 milhões de toneladas apenas em minério de ferro e compostos relacionados. Já os combustíveis fósseis representam 3,5% do total, e o relatório destaca o aumento dos investimentos nesse setor, apesar de metas de redução dos gases-estufa.
As organizações também calcularam a pegada material da economia brasileira. Esse indicador mede a quantidade de matérias-primas incorporadas na cadeia de suprimentos para satisfazer a demanda de bens e serviços, independentemente de onde ocorre a extração, o processamento ou o descarte dos recursos.
Os sistemas alimentares lideram a demanda de recursos naturais, com 2,2 bilhões de toneladas em 2023. A manufatura aparece na segunda posição, com 596 milhões de toneladas, e abrange a fabricação de alimentos e bebidas, além das indústrias têxtil, automotiva e química.
O setor de construção e infraestrutura absorveu 514 milhões de toneladas, seguido por serviços (330 milhões de toneladas), mobilidade (285 milhões de toneladas), saúde e educação (117 milhões de toneladas) e comunicações (55 milhões de toneladas).
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Em sintonia com a extração de recursos, a área alimentar responde pela maior parcela das emissões, com 565 milhões de toneladas de CO2e. Serviços ocupam o segundo lugar (216 milhões de toneladas), seguidos por itens manufaturados (153 milhões de toneladas) e construção e infraestrutura (143 milhões de toneladas).
O relatório afirma que 87% da pegada de carbono nacional acontece no próprio país e apenas 13% têm relação com produtos do exterior, o que confere uma vantagem ao Brasil para reduzir as emissões por meio de políticas domésticas.
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Somente 5,2% dos empregos brasileiros, cerca de 5,1 milhões de trabalhadores, contribuem para a economia circular. O cálculo se baseia em metodologia desenvolvida com a OIT (Organização Internacional do Trabalho) e a Corporação Financeira Internacional.
Os setores de manutenção de automóveis e de comércio atacadista e varejista concentram quase metade dos empregos circulares, com 2,1 milhões de trabalhadores, e o restante se distribui em categorias como transporte e abastecimento de água.
"Quando os empregos circulares são marginais, é sinal de que o mercado ainda não recebeu os sinais certos", afirma Peres. "É uma oportunidade de desenvolvimento econômico que o Brasil está deixando na mesa."
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