Os Estados Unidos, que por mais de um século detiveram a liderança mundial em exportações agrícolas, enfrentam um cenário de declínio que pode culminar na perda desse posto para o Brasil. Agricultores americanos, como Corey Goodhue em Iowa, relatam margens de lucro cada vez menores, apesar de colheitas recordes. A propriedade de Goodhue, que expandiu significativamente em tamanho ao longo das décadas, registrou prejuízo na safra de soja do ano passado e projeta lucro operacional modesto para este ano, diante de despesas elevadas. Essa dificuldade generalizada é projetada pela American Farm Bureau Federation, que prevê perdas substanciais por hectare para culturas como soja, milho e trigo.

O declínio americano é parcialmente atribuído às tensões comerciais e às tarifas impostas pelo governo dos EUA, que levaram a China, um dos maiores compradores, a reorientar suas importações para o Brasil. No ano passado, as exportações agrícolas americanas totalizaram US$ 171 bilhões, superando o Brasil em apenas US$ 2 bilhões. Contudo, as vendas brasileiras registraram um crescimento de 6% no primeiro semestre deste ano, alcançando US$ 87 bilhões, indicando uma forte tendência de ultrapassagem em 2026.

Essa mudança no panorama agrícola global não afeta apenas os balanços das fazendas, mas também remodela cadeias de suprimento e padrões de investimento em ambos os países, com repercussões sociais e políticas mais amplas. Enquanto os EUA dependem de propriedades maiores e apoio governamental, o Brasil tem visto sua expansão agrícola impulsionar cidades e, ao mesmo tempo, gerar desafios de infraestrutura e preocupações ambientais.

O Brasil já se consolidou como o maior produtor mundial de soja, carne bovina e frango, e superou os EUA como principal exportador de algodão. A China, que antes dependia fortemente da soja americana, passou a aumentar suas compras do Brasil, consolidando relações comerciais, capacidade de processamento e rotas de exportação que se tornaram vantajosas. O Departamento de Agricultura dos EUA, embora preveja um recorde de exportações para o período de 12 meses encerrado em setembro, reconhece a queda na participação americana no comércio mundial de cereais a longo prazo, de 68% para cerca de 30% em duas décadas.