O Brasil tem o maior laboratório científico do hemisfério sul, um sistema público que atende mais de 70% da população e universidades com capacidade de pesquisa comparável à de países desenvolvidos. O que falta para o país é a habilidade de transformar tudo isso em produto e exportá-lo para o mercado global.

Essa foi a realidade apresentada por representantes da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) e da Associação Brasileira da Indústria de Insumos Farmacêuticos (Abiquifi) em um roundtable sobre o ecossistema nacional de saúde, no Annual Meeting da Vesper Biotechnologies.

“Não só existe um lugar reservado para o Brasil no cenário global, como nós não podemos nos dar ao luxo de não sentar nessa mesa”, disse Marcos Valadares, CEO da Cellertz e mediador do debate. “Não assumir essa posição significa abrir mão do nosso próprio caminho para melhorar a situação do País.”

O ponto de partida da conversa foi o Sistema Único de Saúde, o SUS, que não é apenas um desafio de gestão pública, mas um ativo estratégico de inovação subestimado. Com escala continental e capacidade de absorção de tecnologias, o sistema pode funcionar como indutor e comprador de inovação radical privada.

“Nenhum desenvolvimento tecnológico complexo se sustenta financeiramente atendendo apenas ao mercado público nacional”, alertou Norberto Prestes, presidente executivo da Abiquifi. Na sua avaliação, o Ministério da Saúde precisa operar em duas frentes: garantir o abastecimento imediato da população e estruturar uma rede de inovação radical com participação de investidores privados.

Um dos marcos concretos destacados foi o contrato firmado entre o Ministério da Saúde e o CNPEM, que prevê R$ 50 milhões anuais dedicados a projetos de inovação radical em saúde, uma mudança significativa para um centro que historicamente concentrava 90% de seus recursos via Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. “Quando olhamos para o Sirius como símbolo, posicionamos o Brasil e a América do Sul em outro patamar”, disse Claudia Caparelli, head de Inovação do CNPEM. O acelerador de partículas, considerado o mais avançado do hemisfério sul, é a âncora de um centro com quase 2 mil pessoas.

Para o primeiro ciclo do programa, quatro projetos foram selecionados; os próximos contarão com um comitê que reúne indústria farmacêutica, consultores de investimento e especialistas nacionais, avaliando propostas e abertas a pesquisadores de qualquer universidade do país. Além do CNPEM, outras organizações passaram a investir na área: a Embrapii lançou, junto ao Ministério da Saúde, linhas de financiamento que cobrem até 90% dos custos de tecnologias disruptivas, enquanto o Sebrae expandiu sua atuação para empreendedores de base biotecnológica.

É nesse sentido que o papel das startups se torna central. Para Prestes, elas são o vetor do processo de inovação radical, e o desafio é prepará-las para competir globalmente, o que passa por regulação, patentes e capacidade de atrair capital estrangeiro. A Abiquifi começou esse trabalho em 2022, em diálogo direto com a presidência da Anvisa. O resultado mais concreto veio em 2023, por meio de um decreto que reposicionou a agência não apenas como reguladora, mas também como agente de inovação.

“Isso muda tudo. Parece pouco, mas mobiliza um novo grupo internamente”, disse Prestes. A articulação com a Apex também gerou um projeto junto à OPAS e ao Ministério da Saúde para mapear 50 itens estratégicos para a saúde pública nacional, dado que a produção interna hoje supre apenas 25% da demanda.

“Possuímos cientistas maravilhosos, mas os profissionais de negócios ainda não compreenderam que podem atuar como executivos de empresas originadas nas universidades”, disse Paulo Schor, gestor de Pesquisa para Inovação da FAPESP. A fundação, que administra cerca de R$ 2,5 bilhões anuais, o equivalente a 1% do ICMS paulista, está finalizando o lançamento do PIPE Saúde, chamada estratégica para startups do setor, e tenta introduzir avaliadores de negócios nos processos de análise de projetos.

O próximo passo apontado é a pesquisa clínica. A China e a Austrália já estão atraindo patrocinadores de ensaios clínicos internacionais, tornando-se altamente competitivos pela agilidade dos processos. “A diferença crítica reside na organização da rede”, disse Schor. “Quando os pontos de acesso são conhecidos e articulados, o desenvolvimento avança. Possuímos a estrutura. O que falta é mapear e integrar os nós.”