O Brasil inicia um período crucial de preparação para o retorno previsto do fenômeno El Niño no segundo semestre de 2026. Este momento é caracterizado por um avanço significativo na informação científica, sistemas de monitoramento mais sofisticados e a estruturação de uma agenda climática nacional mais robusta. A implementação do Plano Clima, a principal estratégia do país para orientar políticas de mitigação e adaptação climática na próxima década, ganha destaque. A questão central deixa de ser a ocorrência do fenômeno e passa a ser a capacidade brasileira de converter o planejamento em uma resposta eficaz a eventos extremos.

O primeiro grande teste para o Plano Clima não se dará em fóruns internacionais, mas sim na prática, medindo a eficiência em minimizar perdas humanas, sociais e econômicas durante o próximo ciclo de eventos climáticos extremos. A recente ocorrência de vendavais em São Paulo e no Rio de Janeiro serve como um alerta sobre a necessidade de aprimorar a capacidade de resposta a esses eventos. Em um planeta cada vez mais aquecido, os efeitos do El Niño são potencializados, exacerbando secas, ondas de calor, incêndios florestais e precipitações intensas. Estes impactos afetam diretamente setores vitais para a economia brasileira, como infraestrutura, produção agropecuária, geração de energia hidrelétrica, logística, abastecimento de água, saúde pública e o mercado de seguros.

A complexidade do desafio climático é reforçada por dados ambientais consolidados. Embora o desmatamento tenha apresentado queda em 2024, as queimadas registraram um aumento expressivo, afetando praticamente todos os biomas brasileiros. Esse contraste evidencia que o controle da supressão da vegetação, embora essencial, já não é suficiente. Diante de eventos extremos mais frequentes, a adaptação exige o fortalecimento de sistemas de alerta precoce, planejamento territorial e uma coordenação aprimorada entre os governos federal, estaduais e municipais. O Plano Clima, elaborado com a participação de 25 ministérios, busca organizar a política climática nacional em eixos de mitigação e adaptação, estabelecendo metas e ações específicas para diversos setores.

A efetivação da agenda climática brasileira dependerá substancialmente da capacidade de mobilizar investimentos, tanto nacionais quanto internacionais. Instrumentos como o Fundo Clima e o Fundo Amazônia, além de linhas de financiamento e recursos de instituições como o Banco Mundial e o BID, estão disponíveis. No entanto, o acesso a esses mecanismos requer projetos bem estruturados, capacidade técnica e governança sólida. O fortalecimento das instituições estaduais emerge como um fator determinante para ampliar os investimentos em infraestrutura resiliente e adaptação climática. O debate sobre adaptação transcende a esfera ambiental, integrando-se às discussões sobre segurança energética, competitividade econômica e sustentabilidade das contas públicas, configurando a capacidade institucional como o principal diferencial para a antecipação e gestão de riscos climáticos.