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4.jul.2026 às 4h00 Diminuir fonte Aumentar fonte The Economist Fernanda Lima e Rodrigo Hilbert são conhecidos como "o casal favorito do Brasil". Ela é uma atraente apresentadora de televisão. Ele é um belo faz-tudo que apresenta programas de reformas domésticas e culinária. Os filhos gêmeos do casal são modelos.

E agora toda a família é embaixadora da fabricante chinesa de veículos elétricos Geely. "Uma família bonita como essa tem uma influência real aqui no Brasil", diz sorrindo Jianjun Chen, da Renault Geely, o braço brasileiro da empresa. "Só chegamos ao Brasil no ano passado, então temos que acelerar o marketing."

As marcas chinesas se tornaram onipresentes no Brasil. Brasileiros de alta renda dirigem carros fabricados pela BYD, usam celulares da Huawei, assistem a televisores produzidos pela Hisense, pedem refeições pelo 99Food e fazem compras online na Shopee.

Em 2025, empresas chinesas investiram pelo menos US$ 6 bilhões (R$ 31,14 bilhões) no Brasil, segundo dados coletados de divulgações corporativas pelo American Enterprise Institute, think tank de Washington, e pelo Conselho Empresarial Brasil-China.

Isso representou mais de 10% de todos os grandes investimentos destas companhias no exterior. E foi mais do que as empresas chinesas investiram em qualquer outro país do exterior.

Os investimentos em manufatura superaram os de petróleo e mineração. Em agosto, a GWM iniciou a produção em uma fábrica que pertencia à Mercedes Benz. Em outubro, a BYD inaugurou uma fábrica de US$ 1 bilhão, sua maior fora da Ásia, no local de uma antiga planta da Ford no Nordeste do Brasil. A Geely comprou uma participação de 26% na Renault Brasil, que já possui uma fábrica no Sul. BYD e GWM foram as marcas de automóveis que mais cresceram no ano passado no Brasil, com a Chery, outra concorrente chinesa, logo atrás.

Essas empresas estão gastando fortunas em marketing. Para promover seus SUVs premium, a Chery contratou a atriz Bruna Marquezine a um custo estimado de R$ 10 milhões. Além da parceria com o casal Fernanda Lima e Rodrigo Hilbert, a Geely patrocinou o "Big Brother Brasil".

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Recentemente, essas e outras empresas chinesas identificaram uma nova oportunidade: fornecer baterias de grande porte para redes elétricas. Espera-se que o primeiro leilão de baterias do Brasil, programado para dezembro, levante US$ 1,5 bilhão (R$ 7,78 bilhões) em investimentos em células projetadas para armazenar energia excedente de painéis solares e turbinas eólicas, além de alimentar data centers.

Em 17 de junho, a BYD anunciou que sua próxima fase de investimentos no Brasil será em baterias. Daniel Abdo, da Sigma Lithium, a maior empresa de lítio do Brasil, declarou que a principal mina da companhia em Araçuaí (MG) tem recebido "muitos visitantes chineses". Muitos deles têm em mente o armazenamento em escala de rede.

O dinheiro chinês está fluindo para o Brasil em parte porque países europeus e os EUA têm erguido barreiras protecionistas. Mas também corresponde às prioridades domésticas da China. No início dos anos 2000, as empresas do país investiram na América Latina para garantir recursos naturais. Nos anos 2010, construíram muita infraestrutura para ajudar a exportar o excesso de aço. Agora a China busca lugares onde possa dominar em setores de alta tecnologia.

"Toda a atenção da nossa matriz, todos os nossos recursos, estão sendo direcionados para o Brasil", disse Matheus Benatti, da Hisense Brasil. Atilio Rulli, diretor de relações institucionais da Huawei Brasil, afirmou que este ano o Brasil trará mais receita para a Huawei do que qualquer país, exceto a China.

Ajuda o fato de que os governos dos dois países se dão bem. A China é o maior parceiro comercial do Brasil desde 2009, quando ultrapassou os Estados Unidos. Em 25 de junho, o ministro da Fazenda do país, Dario Durigan, disse que pela primeira vez o Brasil vai tomar empréstimos em yuan.

Em abril, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi acusado de demitir um funcionário do Ministério do Trabalho por incluir a BYD em uma lista de empregadores acusados de submeter trabalhadores a condições análogas à escravidão. O governo disse que foi uma mudança rotineira de pessoal.

Em 2024, a polícia brasileira resgatou mais de 160 trabalhadores chineses trazidos para construir a fábrica da BYD na Bahia, que foram encontrados vivendo mal pagos em alojamentos precários. A BYD afirmou que desconhecia as condições e culpou uma subcontratada; a empresa alegou que corrigiu a conduta.

Os brasileiros comuns também estão se aproximando da China. Eles cada vez mais a veem como a principal potência tecnológica do mundo. Cerca de metade dos brasileiros acredita que a China lidera o mundo em IA, em comparação com 39% que acham que os Estados Unidos estão à frente, segundo uma pesquisa da consultoria inglesa Public First. "No passado, os consumidores tinham reservas em relação às marcas chinesas", reconheceu Andy Fang, da Huawei Brasil. Isso não existe mais.

Muitos brasileiros desconfiam de Donald Trump. Em maio, ele e Lula tiveram um encontro amigável na Casa Branca. Mas dias depois, Jamieson Greer, o representante de comércio dos EUA, pediu tarifas de 25% sobre muitas exportações brasileiras. Os brasileiros veem a justificativa de Greer —"práticas comerciais desleais"— como uma desculpa para o protecionismo. Em 18 de junho, Trump disse ao site Axios que "não poderia se importar menos" com Lula.

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Os investidores chineses não se abalam com a eleição presidencial do Brasil em outubro. "O setor privado é muito mais importante para impulsionar essa relação do que qualquer coisa relacionada a governos", analisou Hsia Sheng, da Fundação Getulio Vargas. "Se a eleição importasse, os investimentos teriam parado, mas o oposto está acontecendo."

Isso pode ser uma má notícia para Trump, que parece acreditar que, se o rival de direita de Lula chegar ao poder, o país afrouxará seus laços com a China. Um analista ouvido pela reportagem definiu que o governo dos EUA mostra que não entende o Brasil. E isso fica evidente.

Texto do The Economist, traduzido por Fernando Narazaki, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado em www.economist.com

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