Não é possível combater o crime organizado sem uma coordenação afinada entre entes municipais, estaduais e federais. A conclusão é um ponto pacífico entre especialistas que discutiram sobre segurança pública, ontem, em mais uma edição do Caminhos do Rio, seminário promovido pelos jornais O GLOBO e Extra, com apoio da Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Integração foi a palavra-chave. Como fio condutor do debate, a nova fase da segurança carioca, com a criação da Força Municipal e a modernização da Guarda, além do impacto da inteligência de dados e do ordenamento urbano na proteção do Rio. Os debates foram mediados pelo editor de Rio do GLOBO e do Extra, Rafael Galdo.
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Presidente da Câmara Municipal carioca, o vereador Carlo Caiado (PSD) — que integrou o primeiro painel, sobre a integração entre os poderes públicos — destacou a contribuição da Casa para o surgimento da Força Municipal, criada após uma alteração, em 2024, na Lei Orgânica do Município, permitindo o uso de armas de fogo pela Guarda Municipal.
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Em seis meses de existência, a Força Municipal efetuou mais de 1.300 prisões, recuperou mais de 350 celulares, apreendeu mais de 30 réplicas de armas de fogo e reduziu em mais de 50% o índice de roubos e furtos em alguns bairros, como Botafogo, Santa Cruz e Bangu. Isso sem disparar um único tiro, comemorou Brenno Carnevale, secretário municipal de Segurança Pública:
— Fazemos o mapeamento das áreas de concentração de crimes para definir o emprego do efetivo, de modo que esteja no lugar certo, na hora certa. O objetivo é se antecipar ao criminoso. Graças aos dados do Instituto de Segurança Pública e da Polícia Civil, nossos agentes já saem da base sabendo onde permanecer e o que fazer, dependendo da distribuição da Polícia Militar. Se eles desviam da rota, o dispositivo de GPS instalado na câmera corporal emite um alerta. Só nessa operação, já temos quatro órgãos envolvidos.
A coordenadora do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni) da UFF, Carolina Grillo, destacou que a Polícia Federal tem tido importante atuação no combate a crimes como lavagem de dinheiro e fabricação de armamento, mas que falta maior articulação com as polícias civil e militar e demais órgãos com mais capilaridade nos territórios.
— No Rio, temos facções criminosas e milícias que dominam amplos territórios, impõem a força e formam monopólios de mercado, encarecendo o custo de vida. O combate ao crime organizado exige uma atuação intersetorial — sugere ela. — Precisamos ainda redirecionar a cultura do confronto direto para identificar atores intermediários que estabelecem a conexão entre instituições públicas, setores empresariais e o crime. Em nenhum lugar o crime prospera sem a colaboração de agentes públicos.
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Diretor do Sistema Único de Segurança Pública (Susp), criado em 2018 pela lei nº 13.675 e ligado ao Ministério da Justiça, João Alberto Nogueira Júnior explicou que a consolidação de práticas de integração promovidas pelo Susp depende da constitucionalização do sistema, por meio da aprovação da PEC da Segurança Pública, em tramitação no Senado Federal.
No segundo painel, sobre tecnologia e inteligência, Marcus Belchior, secretário municipal de Ordem Pública (Seop), ressaltou que a pasta tem feito fiscalização de motocicletas cruzando dados da prefeitura e do ISP, para entender origem e destino. O programa Tolerância Zero, de ordenamento e combate ao crime na orla, tem se utilizado do mesmo mecanismo para verificar o alvará de imóveis utilizados como depósitos por ambulantes.
— A moto, hoje, é uma ferramenta na dinâmica de furto e roubo. Como a gente integra a base do 1746 e do Disque Denúncia, por exemplo, nesse processo? Colocar todas essas bases num sistema para direcionar a tomada de decisão é muito complexo, mas a Prefeitura do Rio vem fazendo isso. Com liderança, tecnologia e cruzamento de dados estruturados, a gente consegue sistematizar o conceito da integração. Sem segurança pública, não teremos desenvolvimento econômico — comentou.
— No ano que vem, o ISP vai fazer a pesquisa de vitimização, para medir a subnotificação de crimes, a sensação de insegurança e a confiança nas instituições. Vamos perguntar, por exemplo, se a pessoa foi vítima de alguma violência, (se sim) se fez registro de ocorrência e como se sente no seu bairro. A intenção é que ela se torne periódica e ajude em políticas para fortalecer a sensação de segurança — afirmou.
Entre os esforços para aumentar a proteção da população, Felipe Boró (PSD), vereador e vice-presidente da Comissão de Segurança Pública da Câmara, defende o fim das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP):
— O programa deixa quatro mil policiais reféns dentro das comunidades, onde deveria haver outras frentes do poder público, com ações sociais. Como hoje não dá resultado, deveríamos trazê-los para o asfalto.
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De volta à tecnologia, Carlos Affonso Pereira de Souza, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS-Rio), observa que, tão importante quanto os avanços técnicos, é a capacitação da mão de obra humana:
— Há um certo fetiche em relação a avanços da tecnologia e da inteligência artificial, mas devemos olhar para o humano por trás das máquinas. O quão treinado ele está para tirar o melhor dos recursos tecnológicos? Uma boa tecnologia sem uma governança por parte do ente público pode ser pouco aproveitada se o funcionário da ponta não tem capacitação para extrair o que se espera.
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