Agenda propõe investigação, integração institucional e valorização profissional para diminuir a criminalidade

A sensação de insegurança é difusa e constante: 94% da população reconhece algum grau de violência na cidade onde vive; mais da metade evita sair à noite e 1/3 deixa de usar o celular na rua como forma de autoproteção. O problema é que esse medo generalizado e real tem sido sequestrado por políticos que oferecem narrativas simplistas e soluções milagrosas, como se um único decreto ou uma promessa de ações mais duras pudessem desmontar a complexa teia do crime organizado.

Se o tema da segurança já era relevante nas eleições anteriores, agora ele está profundamente polarizado e sujeito a um risco real de ser usado de forma oportunista.

Diante desse cenário, o Instituto Sou da Paz lança a agenda “Brasil em ação pela paz – Propostas para uma segurança pública de verdade“, que tem como objetivo contribuir para um debate público mais qualificado, oferecendo ao eleitor ferramentas concretas para avaliar candidaturas e cobrar políticas sérias e eficazes. Para isso, o documento vai além de um conjunto de ideias e propõe a campanha “Vote pela Paz”, que ajuda os cidadãos a formular perguntas diretas para aqueles que pedem seu voto.

A agenda está organizada em 5 áreas prioritárias, que refletem tanto os grandes desafios quanto o que a maioria da população realmente deseja:

As instituições policiais estão adoecidas –o suicídio é a principal causa de morte entre policiais– e metade da população tem mais medo do que confiança nelas. Mais do que aumentar efetivos, o Brasil precisa profissionalizar a gestão, investir em perícia e investigação, além de recuperar a legitimidade das forças de segurança.

Enfrentar o crime organizado exige ir além do confronto armado nos morros. Facções infiltram-se em mercados legítimos, como combustíveis, mineração e transportes, e movimentam centenas de bilhões de reais. É preciso que as ações sejam baseadas na inteligência financeira, na cooperação entre Receita Federal, Polícia Federal, COAF e Ministério Público e no fortalecimento de instrumentos como as Ficcos (Forças Integradas de Combate ao Crime Organizado).

Trata-se do crime que mais afeta o cotidiano, especialmente o roubo de celulares, que hoje conecta violência urbana, fraudes digitais e cadeias de receptação quase industriais. Tecnologia, investigação focada e cooperação com o setor privado são caminhos já testados com sucesso, como o programa “Meu Celular de Volta“, no Piauí.

A violência de gênero cresceu de forma alarmante, com recordes de feminicídio e medidas protetivas que muitas vezes não saem do papel. A proposta é simples, mas ousada: o Estado precisa ser capaz de prover segurança para metade da sua população.

Com mais de 5,4 milhões de armas nas mãos de civis e um mercado ilegal abastecido por desvios, tráfico internacional e fabricação clandestina, o Brasil precisa atuar de maneira ativa no rastreamento e na repressão ao tráfico de armas, não só na apreensão em ocorrências de rotina.

Para cada um desses temas, o documento propõe ações concretas, organizadas em 5 alavancas transversais:

Uma pesquisa de opinião recente do Instituto Sou da Paz mostrou que existe uma maioria silenciosa que quer soluções inteligentes, baseadas em legalidade, e que rejeita o discurso do “bandido bom é bandido morto” defendendo, em vez disso, mais justiça, mais investigação e polícias bem preparadas.

O período eleitoral é a hora de transformar essa demanda social em compromisso político. O Brasil merece e precisa de propostas responsáveis, inovadoras e capazes de enfrentar de verdade a insegurança que vive em cada esquina, em cada celular guardado na bolsa com medo, em cada mulher que hesita antes de sair de casa.

A agenda “Brasil em ação pela paz” é uma contribuição para que o debate não se perca em slogans eleitoreiros e para que a paz, enfim, deixe de ser promessa para virar política pública.

Carolina Ricardo Carolina Ricardo, 48 anos, é diretora-executiva do Instituto Sou da Paz. Advogada e socióloga, é mestre em filosofia do direito pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Foi assessora de projetos no Instituto São Paulo Contra a Violência, consultora do Banco Mundial e do BID em temas de segurança pública e prevenção da violência. Escreve para o Poder360 mensalmente às quartas-feiras.

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