O litoral de Pernambuco revive, a cada novo ataque de tubarão, um padrão preocupante e recorrente que se estende por três décadas. Desde 1992, quando os incidentes começaram a ser oficialmente registrados, o ciclo se repete: um ataque gera comoção, o governo anuncia medidas emergenciais, a população se afasta do mar e, com o tempo, a atenção diminui, deixando o problema sem solução duradoura. Pesquisadores e especialistas apontam a falta de continuidade nas políticas públicas como o cerne da questão, criticando a abordagem reativa que só se manifesta após tragédias.
Os registros de 2026 já evidenciam a persistência do problema. Em janeiro, um ataque em Fernando de Noronha e outro na Praia Del Chifre, em Olinda, resultaram em morte. Em maio, dois jovens foram vítimas em Jaboatão dos Guararapes e no Recife, com um deles perdendo a perna. Estes casos somam-se aos 83 anteriores, totalizando 84 ocorrências registradas pelo Comitê de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cmit) desde o início do levantamento oficial.
Oceanógrafos e pesquisadores como Rosângela Lessa e Jonas Rodrigues, ambos da UFRPE, têm alertado há anos para a necessidade de um monitoramento contínuo e de políticas públicas permanentes. Lessa critica a ausência de ações consistentes por longos períodos, enquanto Rodrigues ressalta que o poder público não pode ser meramente reativo. A instalação de 150 novas placas de alerta em 2025, após os ataques de 2023, é vista como uma medida insuficiente, pois as placas mantêm um padrão visual uniforme, sem diferenciar os níveis de risco ao longo da costa.
Sugestões de melhorias, como um sistema de sinalização com cores distintas para cada grau de perigo e a identificação das correntes de retorno – locais onde 42% dos ataques registrados ocorreram –, propostas por pesquisadores há anos, ainda não foram plenamente implementadas. Embora o Corpo de Bombeiros utilize bandeiras coloridas, um plano de divulgação em massa nunca foi aprovado. As medidas oficiais de segurança, elaboradas em 2004, também carecem de atualização, com a sinalização de correntes de retorno sendo apontada como uma medida essencial que deveria ser adicionada. A Secretaria Executiva do Cmit informou que estudos sobre novas estratégias de sinalização estão em andamento, mas sem prazos definidos para implementação.
