A cirurgia ambulatorial é amplamente reconhecida como uma das alavancas mais eficazes para aprimorar a eficiência, a qualidade assistencial e a sustentabilidade do sistema de saúde brasileiro. Evidências internacionais robustas, argumentos econômicos sólidos e a experiência positiva dos pacientes consolidam o consenso de que a desospitalização de procedimentos cirúrgicos eletivos não é apenas uma opção, mas uma necessidade.

Contudo, a transição para um modelo mais eficiente esbarra em barreiras práticas. O simples convencimento sobre os benefícios da cirurgia ambulatorial não é suficiente para sua concretização, pois a execução e a capacidade operacional são os verdadeiros entraves. O Brasil, com uma taxa de procedimentos ambulatoriais significativamente inferior à de países de referência, enfrenta um abismo que reside mais no desenho operacional do que na tecnologia ou no talento médico.

A abordagem atual frequentemente trata as Unidades de Cirurgia Ambulatorial (UCAs) como versões simplificadas de hospitais gerais, importando suas ineficiências e a cultura de internação. Isso resulta em estruturas que, embora designadas como ambulatoriais, operam com custos e tempos associados ao modelo tradicional, frustrando as expectativas de ganho prometidas. Para superar essa defasagem, é crucial focar nos detalhes de como construir e implementar efetivamente o modelo ambulatorial.

Um roteiro operacional eficaz se estrutura em quatro pilares interdependentes. O primeiro é a governança clínica, que institucionaliza a seleção criteriosa de pacientes para o procedimento e a estrutura adequados, transformando protocolos de elegibilidade em critério institucional. O segundo é a adoção integral do conceito ERAS (Enhanced Recovery After Surgery), que reconfigura toda a jornada perioperatória para otimizar a recuperação do paciente e viabilizar a alta no mesmo dia. O terceiro componente é o desenho completo da jornada perioperatória, abrangendo o pré-operatório, o intraoperatório e o pós-alta, com monitoramento domiciliar estruturado. Por fim, o quarto pilar é a infraestrutura enxuta, focada em otimizar o fluxo e a rotatividade segura das salas, em vez de acumular recursos, alinhando-se à lógica "lean" e a um diálogo com o arcabouço normativo vigente.