O comércio varejista brasileiro registrou um volume de vendas em patamar recorde em janeiro, um feito notável que contraria o ambiente de taxas de juros elevadas. A análise, baseada em dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aponta que a oferta robusta de crédito para pessoas físicas e os índices historicamente baixos de desemprego foram os principais propulsores desse desempenho positivo. A conjunção desses fatores resultou em um cenário econômico dinâmico que sustentou o consumo, desafiando a lógica de um mercado financeiro mais restritivo.
Em janeiro, o volume de vendas no varejo expandiu 0,4% em comparação com dezembro, um crescimento que levou o setor a igualar o nível mais alto já registrado na série histórica do IBGE. Um dos segmentos de maior destaque foi o de hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo, que apresentou o mesmo índice de crescimento de 0,4% na passagem de um mês para o outro, também alcançando um patamar inédito de vendas. Essa atividade é considerada um termômetro crucial para o comércio, representando mais de 55% do total do varejo e refletindo diretamente o poder de consumo das famílias.
O mercado de trabalho desempenhou um papel fundamental para o recorde de vendas. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), também do IBGE, revelaram um crescimento de 2,9% na massa salarial em janeiro, em relação ao mês anterior, atingindo o valor recorde de R$ 370,3 bilhões. A taxa de desemprego, por sua vez, registrou o menor índice já apurado para o trimestre encerrado em janeiro, caindo para 5,4%. Além disso, o número de pessoas ocupadas alcançou 102,7 milhões, um recorde para o período, indicando um aquecimento significativo na geração de empregos e na renda disponível para consumo.
Paralelamente ao bom desempenho do mercado de trabalho, a expansão do crédito foi outro pilar de sustentação para o comércio. A oferta de crédito à pessoa física cresceu 1,6% em janeiro na comparação com dezembro, um movimento que surpreende diante da taxa básica de juros (Selic) em 15% ao ano. Este patamar da Selic é o mais elevado desde julho de 2006 e, teoricamente, deveria restringir o acesso ao crédito e o consumo. Apesar de um recuo de 6,2% nos empréstimos para aquisição de veículos no período, o crédito direcionado à pessoa física, considerado o principal motor para o comércio, demonstrou resiliência e continuou em ascensão, desafiando a expectativa de desaceleração.
A taxa Selic, definida pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, atua como instrumento para controlar a inflação, que em 2025 esteve fora da meta estabelecida. Ao ser elevada, a Selic encarece o crédito e desestimula investimentos e consumo, visando "esfriar" a economia e conter o aumento generalizado dos preços. Contudo, a recente performance do comércio e a expansão do crédito pessoal sugerem que os efeitos restritivos dos juros altos ainda não se manifestaram plenamente em todas as frentes da economia, especialmente no consumo direto e na capacidade de endividamento das famílias para aquisição de bens, apontando para uma dinâmica econômica complexa e multifacetada.
