Quando a China usou seu domínio sobre as terras-raras para retaliar contra tarifas dos Estados Unidos no ano passado, a interrupção nas operações industriais na América e na Europa evidenciou a vulnerabilidade das cadeias de suprimento das empresas ocidentais do fornecimento chinês.

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E, embora a trégua comercial firmada entre os dois países tenha incluído um alívio nos rígidos controles de exportação chineses sobre terras raras, os governos tratam a diversificação do abastecimento como uma questão de segurança nacional e econômica.

Não por acaso, o governo do presidente americano Donald Trump está organizando nesta quarta-feira um fórum sobre minerais críticos no Brasil, em São Paulo, reunindo empresas, investidores e agências federais americanas, em uma tentativa de acelerar projetos no setor mineral brasileiro e ampliar a cooperação bilateral.

O Brasil pode se tornar um player estratégico neste setor. A maior economia da América Latina abriga cerca de um quarto das reservas mundiais de terras-raras — 17 elementos metálicos essenciais para diversas tecnologias, incluindo smartphones, veículos elétricos e drones militares.

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O Brasil ainda está longe de explorar plenamente esse potencial, tendo representado apenas 0,5% da produção global no ano passado. No entanto, essa participação pode começar a crescer à medida que mais investidores estrangeiros financiem projetos, ajudando-os a avançar da fase de exploração para a produção.

Qual é o tamanho das reservas de terras raras do Brasil?

O Brasil possui cerca de 21 milhões de toneladas métricas de reservas de terras raras — depósitos que podem ser extraídos economicamente — segundo o Serviço Geológico dos EUA (USGS, na sigla em inglês). As reservas do país são as segundas maiores do mundo, embora ainda tenham menos da metade do tamanho das da China, líder global.

Confira abaixo o ranking das maiores reservas do mundo:

China: 44 milhões de toneladasBrasil: 21 milhões de toneladasAustrália: 6 milhões de toneladasRússia: 4 milhões de toneladasVietnã: 4 milhões de toneladasEstados Unidos: 2 milhões de toneladasGroenlândia: 2 milhões de toneladasTanzânia: 1 milhão de toneladasÁfrica do Sul: 1 milhão de toneladasCanadá: 1 milhão de toneladasMalásia: 1 milhão de toneladas

As terras-raras brasileiras são encontradas principalmente em depósitos conhecidos como argilas iônicas, o que significa que estão fracamente ligadas à superfície de partículas de argila, em vez de estarem presas em rochas duras. Isso torna a extração e o processamento inicial mais fáceis e baratos.

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Esse tipo de argila costuma ser mais rico em terras-raras “pesadas”, que atualmente são produzidas quase exclusivamente pela China. Elementos como disprósio e térbio são geralmente menos abundantes e mais valiosos do que as terras-raras leves. Eles são usados em ímãs permanentes, componentes essenciais em carros elétricos, turbinas eólicas, data centers e caças militares.

Qual é a escala atual da produção de terras-raras no Brasil?

A produção mineral do Brasil totalizou apenas 2 mil toneladas no ano passado, segundo o USGS, tornando-o o nono maior produtor mundial. Em comparação, a China produziu 270 mil toneladas, sendo responsável por mais de 60% da produção global.

Há apenas uma mina ativa de terras-raras no Brasil: Pela Ema, pertencente à empresa local Serra Verde no estado de Goiás. A mina e sua planta de processamento iniciaram produção em escala comercial em 2024, e a Serra Verde pretende elevar a produção anual para 6.500 toneladas de óxidos de terras-raras até o fim do próximo ano.

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O depósito de Pela Ema contém elementos leves e pesados — principalmente neodímio, praseodímio, térbio e disprósio — todos utilizáveis em ímãs permanentes.

Há mais de 60 projetos de terras raras espalhados pelo país, em diferentes estágios de desenvolvimento, segundo o Serviço Geológico do Brasil.

Projetos de terras raras com previsão de início até 2028:

Empresa: AclaraStatus: ExploraçãoInvestimentos necessários: US$ 680 milhõesInício estimado da produção: 2028

Empresa: Meteoric ResourcesStatus: ExploraçãoInvestimentos necessários: US$ 440 milhõesInício estimado da produção: 2028

Empresa: Viridis MiningStatus: ExploraçãoInvestimentos necessários: US$ 360 milhõesInício estimado da produção: 2028

Empresa: Serra VerdeStatus: ProduçãoInício da produção: 2024

Empresas já estão negociando com potenciais compradores nos EUA e na Europa antes mesmo de iniciar a produção. Os projetos mais avançados concentram-se nos estados de Minas Gerais e Goiás.

As empresas Aclara Resources, e as australianas Meteoric Resources e Viridis Mining and Minerals pretendem iniciar produção no Brasil até 2028. Para cumprir esse cronograma, precisarão garantir financiamento até meados deste ano.

Qual é o nível de interesse estrangeiro nas terras-raras do Brasil?

A China percebeu cedo a oportunidade no Brasil. Quando a Serra Verde desenvolvia sua mina, assinou contratos de 10 anos para vender sua produção a clientes chineses. No entanto, a empresa renegociou esses acordos para encerrá-los até o fim deste ano, abrindo espaço para negociações com compradores ocidentais e obteve recentemente um financiamento americano.

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Os Estados Unidos e a União Europeia buscam formar alianças com o Brasil. Segundo analistas da XP Research, “embora sensibilidades diplomáticas possam influenciar o timing, ambos os lados veem um acordo sobre terras-raras como estrategicamente benéfico”. O Brasil ganharia investimento e tecnologia, enquanto EUA e União Europeia (UE) garantiriam uma fonte alternativa à China.

Brasil e EUA vêm tentando reaproximar relações após tarifas elevadas impostas durante o governo Trump. No entanto, os esforços para uma grande parceria mineral avançam lentamente. Ainda assim, o governo americano está apoiando projetos por meio da Development Finance Corporation (IDFC, sua agência de fomento às exportações).

A DFC concedeu um empréstimo de US$ 565 milhões à Serra Verde para modernizar a mina Pela Ema. O acordo dá ao governo americano a opção de adquirir participação minoritária na empresa. A Serra Verde também pode participar do programa “Project Vault”, de US$ 12 bilhões, para estocar minerais críticos e reduzir a dependência dos EUA em relação à China.

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Outras agências internacionais também avaliam financiar projetos no Brasil, incluindo bancos de exportação da Austrália, França e Canadá. A Meteoric Resources, por exemplo, recebeu manifestações de interesse que podem somar até US$ 300 milhões para seu projeto Caldeira.

A União Europeia também busca avançar, negociando investimentos conjuntos em minerais críticos com o Brasil. Além disso, o governo brasileiro trabalha para fortalecer a cooperação com países como Índia, Coreia do Sul e Arábia Saudita.

O que impede o avanço da indústria de terras-raras no Brasil?

O principal obstáculo é o financiamento. No Brasil, direitos minerários e produção futura não podem ser usados como garantia para crédito doméstico. Isso leva empresas a buscar financiamento internacional, comprometendo parte da produção futura.

Outro desafio é o longo tempo para licenciamento: obter autorização pode levar quase uma década. O Brasil possui normas ambientais e de segurança mais rigorosas após desastres com barragens de rejeitos. Além disso, o processo envolve múltiplas agências e regras que variam por estado.

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Desenvolver essa indústria vai além da extração. O governo busca criar uma cadeia completa, mas ainda faltam políticas integradas que conectem extração, processamento e manufatura.

A mineração representa apenas 10% a 20% do valor total da cadeia, enquanto a separação e o refino respondem por 40% a 50%, e a produção de ímãs permanentes por 30% a 40%.

O que o governo brasileiro está fazendo para destravar esse potencial?

Um projeto de lei para criar um marco regulatório para minerais críticos deve avançar rapidamente no Congresso. Ele deve incluir incentivos fiscais e mecanismos de garantia financeira para facilitar o acesso a crédito.

No ano passado, o BNDES e a Finep lançaram um fundo de R$ 5 bilhões para apoiar a cadeia de minerais críticos, com 56 projetos selecionados.

O Brasil também lançou a iniciativa MagBras, que reúne 28 empresas e sete centros de pesquisa para desenvolver uma cadeia integrada — da mineração à produção de ímãs — fortalecendo a capacidade nacional em todas as etapas.