Em um cenário em que 53% das famílias brasileiras raramente leem para seus filhos — segundo dados da OCDE —, o papel da escola torna-se ainda mais crítico no enfrentamento ao imediatismo tecnológico.

Leitura estimula memória e afasta crianças das telas, diz especialista5 dicas para transformar o tempo de tela em aprendizadoComo a obra de Mauricio de Sousa ajudou a alfabetizar o Brasil? A barreira do excesso de estímulos Segundo Leonardo Monteiro, gerente de ensino médio da Fundação Bradesco, a exposição a conteúdos estimulantes impacta diretamente a capacidade de sustentar a atenção.

Essa "hiperconexão" reflete-se na dificuldade dos alunos em interpretar textos longos, organizar ideias com clareza e ampliar o vocabulário.

“Observamos em nosso cotidiano escolar que o excesso de exposição às telas tem impactado a forma como crianças e jovens leem e escrevem. O consumo constante de conteúdos curtos, rápidos e altamente estimulantes reduz, muitas vezes, a capacidade de concentração, de sustentação da atenção e de aprofundamento da leitura. Isso aparece na dificuldade de interpretar textos mais longos, organizar ideias com clareza, ampliar vocabulário e produzir escritas mais elaboradas”, adverte o especialista.

Para combater esse fenômeno, a estratégia pedagógica adotada pela fundação inclui a restrição total de telas na Educação Infantil e no 1º ano do ensino fundamental. “O foco está totalmente voltado para experiências concretas, interação, oralidade, exploração do mundo físico e construção das bases cognitivas e socioemocionais da aprendizagem. Entendemos que, nessa etapa, o desenvolvimento da linguagem, da atenção e do pensamento precisa acontecer a partir de vivências reais e não mediadas prioritariamente por dispositivos”, explica Mara Pane, superintendente de ensino da fundação.

A pauta levanta uma questão central sobre o domínio da norma culta no Brasil. Embora o "português das redes sociais" tenha democratizado o debate público e dado voz a grupos historicamente marginalizados — como comunidades quilombolas, indígenas e periféricas —, a falta de domínio da linguagem formal ainda atua como uma barreira de exclusão.

Para os especialistas, ensinar a grafia correta, a paragrafação e a argumentação não é apenas uma prática tradicional, mas um ato de cidadania. O domínio dessas bases permite que novas vozes influenciem o debate público de forma eficaz, sem que suas identidades regionais sejam apagadas, mas sim fortalecidas por uma comunicação capaz de transitar em todas as esferas de poder.

Para enfrentar o desafio, a Fundação Bradesco mantém um Programa de Leitura que beneficia mais de 42 mil estudantes, distribuindo quatro livros por ano a cada aluno. O acervo transita entre sucessos como Harry Potter e clássicos como Capitães da Areia, visando criar vínculos afetivos com a leitura.

“Talvez ensinar crianças e jovens a desacelerar, refletir e construir pensamento com profundidade seja, atualmente, uma das coisas mais inovadoras que a escola pode fazer”, afirma Monteiro.

O objetivo final, segundo ele, é garantir que a literatura contemporânea continue refletindo o impacto social desses novos grupos, transformando a língua em um instrumento vivo de resistência e participação democrática.