Sem um grande tema de negociação nem revisão de metas do Acordo de Paris na pauta, a COP31, Conferência do Clima da ONU que acontece de 9 a 20 de novembro em Antalya, na Turquia, quer se firmar como a conferência da implementação. E a presidência turca escolheu resíduos, economia circular e desperdício zero como um dos caminhos para mostrar resultados práticos.
“Essa será a COP da ação e da implementação”, afirma Carlos Silva Filho, assessor especial do Campeão de Alto Nível para o Clima da COP31 (Climate High-Level Champion).
O brasileiro integra a equipe de quatro assessores de Samed Agirbas, o campeão climático da COP31. Silva Filho é responsável pela agenda de Desenvolvimento Sustentável e Economia Circular e participou da formatação das metas para o setor anunciadas em setembro, na Semana do Clima de Nova York.
Para resíduos, as metas são reduzir pela metade o aumento na geração de resíduos urbanos até 2035 e alcançar, pelo menos, 15% na taxa global de uso de materiais circulares no mesmo prazo. Hoje, esse índice está em 6,9%.
O Atlas Global de Resíduos Sólidos, lançado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e pela Associação Internacional de Resíduos Sólidos (ISWA, na sigla em inglês) em 2024, projeta que a geração de resíduos sólidos aumente de 2,3 bilhões de toneladas em 2023 para 3,8 bilhões até 2050.
Atualmente, 38% dos resíduos são descartados em locais inadequados e apenas 19% dos resíduos sólidos urbanos são reciclados. Medidas de lixo zero e economia circular, por outro lado, podem gerar um ganho líquido anual de US$ 108,5 bilhões.
Silva Filho diz que o setor ainda é visto como pouco relevante para o clima, porque responde diretamente por cerca de 3% das emissões globais de gases de efeito estufa. Mas, segundo ele, os estudos que embasam o trabalho da equipe mostram que uma gestão adequada dos resíduos pode ajudar a reduzir em até 25% das emissões totais, porque o efeito não fica restrito ao próprio setor.
Um exemplo é o biometano. Produzido a partir dos resíduos, ele reduz as emissões do próprio setor e, usado como combustível, também as do transporte. Outro exemplo é a reciclagem. Ao substituir matéria-prima virgem, ela reduz as emissões de toda a cadeia, da extração à manufatura, como acontece quando o alumínio reciclado substitui a bauxita virgem.
O metano é outra preocupação. “Se não combatermos o metano, não vai adiantar combater o dióxido de carbono”, diz.
Silva Filho conta que, anos atrás, em uma reunião da COP sobre os temas a serem considerados nas negociações, levantou a mão para incluir resíduos e economia circular e ouviu que o assunto não tinha relação com a pauta do clima. Pouco tempo depois, na COP28, em Dubai, em 2023, o setor conseguiu pela primeira vez um pavilhão próprio.
Silva Filho defende usar o desperdício zero e a economia circular como plataforma transversal entre os eixos da agenda de ação climática herdada da COP30. Dessa discussão nasceu a Plataforma de Istambul para Ação contra o Desperdício (Zero Waste Action Platform), lançada em junho, na Turquia.
O brasileiro descreve como uma espécie de “Tinder da ação climática”, que conecta iniciativas àquilo de que elas precisam. “Nem todo mundo precisa de dinheiro. Tem iniciativa que precisa de um aperfeiçoamento regulatório, outra que precisa se conectar com uma infraestrutura que já existe”, afirma. Para ele, essa conexão entre setores deve ser o grande legado da COP31.
Sem uma grande negociação em jogo, as empresas passaram a perceber que os resultados da conferência dependem delas, diz. “Enquanto os governos estabelecem metas e dão diretrizes, o setor privado executa.”
Neste ano, o tema terá um prédio próprio na conferência, o Zero Waste Pavilion, com três auditórios e 180 plenárias previstas. O dia temático de desperdício zero será 11 de novembro, coincidindo com o encontro de líderes. A programação inclui um painel sobre biometano, com participação da brasileira Orizon.
“Não são projetos de alguém que teve uma ideia e quer tirar do papel. É o que o setor de resíduos já está fazendo na prática”, diz. O Rio de Janeiro já anunciou que quer integrar os distritos de desperdício zero, com uma ação para desviar resíduos orgânicos dos aterros sanitários. A equipe também trabalha para que a declaração final de Antalya reconheça a gestão correta de resíduos e o desperdício zero.
O governo brasileiro levou à discussão a Estratégia Nacional de Economia Circular, aprovada recentemente, e apresentou o Recircula Brasil, sistema on-line que rastreia a cadeia dos materiais, como solução para medir se a meta global de 15% de circularidade será alcançada.
Internamente, porém, o país ainda caminha devagar. O índice de reaproveitamento de resíduos gira em torno de 4% ou 5%, segundo Silva Filho. “O arcabouço regulatório e tecnológico está pronto. Precisamos colocá-lo em prática”, afirma.
O financiamento é um dos gargalos. Para Silva Filho, o maior desafio não é só o investimento em infraestrutura, mas custear a operação e a manutenção de longo prazo de estruturas como as unidades de tratamento de resíduos, para as quais não há fonte de recursos. Entre as alternativas em discussão estão créditos de carbono ou de metano e mecanismos de responsabilidade do produtor sobre o que coloca no mercado.
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