Apesar de um avanço de 1,1% no Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil no primeiro trimestre deste ano, conforme dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), uma análise mais aprofundada revela um alerta preocupante para a economia nacional. O ritmo de crescimento da renda produzida por cada brasileiro, medido pelo PIB per capita, é consideravelmente menor do que o observado em outras economias globais, ampliando a distância do país para nações desenvolvidas. Este indicador, que reflete o valor total da produção dividido pelo número de habitantes, é crucial para comparar o tamanho da economia em relação à sua população, e seu crescimento geralmente está associado a mais emprego, consumo e melhor qualidade de vida.

Historicamente, a disparidade se acentuou. Enquanto o PIB per capita global saltou de cerca de US$ 3.300 para mais de US$ 26.000 entre 1980 e 2025, o Brasil registrou um avanço mais modesto, passando de US$ 4.400 para US$ 23.300 no mesmo período, segundo o FMI. Marcos Mendes, pesquisador associado do Insper, destaca que o país cresce menos do que economias mais maduras, contrariando a lógica de que nações em desenvolvimento teriam mais espaço para progredir. O economista-chefe da MB Investimentos, Sérgio Vale, aponta uma quebra no ritmo de crescimento brasileiro a partir dos anos 1980, atribuindo-a à crise do final da ditadura, à dependência de empréstimos externos e a opções por modelos de crescimento insustentáveis que culminaram na hiperinflação. Esse período, segundo ele, deixou o país com dificuldades em resgatar um crescimento mais duradouro.

Economistas são praticamente unânimes quanto às causas estruturais desse atraso, citando a baixa produtividade, o reduzido investimento e um ambiente tributário excessivamente complexo. O desequilíbrio das contas públicas, onde o excesso de injeção de dinheiro goveramental na economia pressiona a demanda e os preços, impulsionando a inflação, também é um fator crítico. A desvantagem brasileira ficou mais evidente durante a severa recessão de 2015 e 2016, quando o PIB nacional registrou quedas de 3% em cada ano. A falta de previsibilidade, conforme Zeina Latif, economista e sócia-diretora da Gibraltar, afeta diretamente as decisões de investimento e o planejamento cotidiano dos cidadãos, que ficam receosos em um contexto de elevado endividamento. Adicionalmente, a intervenção estatal excessiva na economia é vista como um fator que pode abrir portas para a corrupção, criando benefícios seletivos que distorcem a política econômica.

Para reverter este cenário e permitir que o Brasil supere a faixa da renda média, os especialistas apontam um caminho claro. A lição de economias que prosperaram reside no investimento maciço em capital humano, especialmente em educação, além da implementação de reformas estruturais, de uma gestão mais eficiente do dinheiro público e da criação de um ambiente regulatório mais sólido. A agenda de ajuste fiscal é considerada fundamental não apenas para conter o crescimento da dívida pública, mas para resgatar a capacidade de ação estatal, como ressalta Zeina Latif. Sérgio Vale complementa, defendendo uma consolidação fiscal mais robusta, a continuidade das reformas econômicas e um investimento mais pesado na população jovem e infantil. Além disso, a abertura comercial mais intensa com o mundo é destacada como um elemento essencial para impulsionar a produtividade e, consequentemente, o desempenho do PIB per capita do país.