A erva-mate, outrora restrita ao consumo tradicional sul-americano, vive um momento de expansão global, conquistando paladares da Geração Z em metrópoles como Nova York e Berlim. Essa nova onda de popularidade, impulsionada por versões gaseificadas e adoçadas de marcas como Yerba Madre e Clean Cause, tem levado a um aumento significativo nas exportações argentinas, que cresceram quase 35% em 2025. A bebida, associada a figuras como Lionel Messi e o Papa Francisco, transcende suas raízes culturais e se posiciona como uma alternativa de cafeína para consumidores preocupados com bem-estar.
Entretanto, por trás do sucesso internacional, a realidade para muitos pequenos produtores na Argentina é sombria. A desregulamentação de preços e a abolição de políticas de preços mínimos, implementadas pelo presidente Javier Milei como parte de sua "terapia de choque" econômica, resultaram na redução da inflação, mas também na perda de empregos, cortes salariais e enfraquecimento da assistência governamental. Essa conjuntura econômica adversa tem levado um número crescente de agricultores a buscar melhores condições de trabalho e remuneração no Brasil.
Diante do cenário de "situação feia" na Argentina, como descreve Isaías Mendoza, um produtor que migrou para o Rio Grande do Sul, muitos agricultores argentinos sentem que as políticas de Milei os estão "afundando". A retirada de poderes do Instituto Nacional da Erva-Mate (INYM) para definir preços, o corte de subsídios e recursos públicos impactaram diretamente os pequenos produtores, que viram seus rendimentos caírem enquanto os custos de serviços básicos aumentavam. Em contrapartida, grandes produtores e o agronegócio argentino se beneficiaram da desvalorização do peso e da redução de burocracias para exportações.
A província de Misiones, considerada o coração da produção de erva-mate argentina, tem sido o epicentro da crise. Milhares de produtores locais, que investiram anos de trabalho e capital na cultura, enfrentam dificuldades para reduzir a produção, uma vez que as árvurem de erva-mate levam tempo para amadurecer e produzem por décadas. Essa inflexibilidade produtiva, somada à perda da garantia de preços mínimos, levou a um êxodo sem precedentes de trabalhadores rurais e pequenos agricultores para o Brasil, especialmente para o Rio Grande do Sul. Em cidades como Ilópolis, conhecida como a capital brasileira da erva-mate, a chegada desses imigrantes tem sido crucial para suprir a carência de mão de obra em um setor envelhecido e com pouca atração para os jovens locais.
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