A crise no sistema de saúde paraguaio tem levado cidadãos a situações de extremo endividamento, forçando famílias a arcar com custos de insumos médicos e equipamentos que deveriam ser fornecidos por hospitais públicos. O caso de Daniela Benítez, artesã de 62 anos, ilustra a dura realidade: sua filha precisou de um respirador, cânula e até algodão, que custaram mais de US$ 800, levada a organizar uma rifa para cobrir as despesas. A falta de recursos básicos e a sobrecarga de profissionais são apontadas como causas para a precariedade do atendimento.
O problema ganhou notoriedade internacional após o goleiro da seleção paraguaia, Orlando Gill, ter que vender bens pessoais, incluindo sua camisa da seleção, para custear o tratamento médico de seu filho recém-nascido. Essas histórias expõem a fragilidade de um sistema que, segundo a Anistia Internacional, destina poucos recursos do orçamento público à saúde por habitante, ficando abaixo do mínimo recomendado pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) para garantir cobertura universal.
Especialistas e organizações civis classificam o sistema de saúde paraguaio como um dos mais injustos da América Latina, caracterizado pela fragmentação e falta de integração entre os serviços públicos, privados e mistos. Enquanto o Ministério da Saúde Pública busca resolver o aumento da demanda, representantes do governo minimizam as falhas como "episódios pontuais". No entanto, médicos paraguaios anunciaram uma greve nacional de cinco dias para reivindicar mais investimentos e melhorias urgentes.
A rede pública de saúde atende cerca de 70% da população sem plano de saúde, e as deficiências são ainda mais agudas nas áreas rurais, onde mais de 82% dos habitantes não têm cobertura. Apesar de o Ministério da Saúde afirmar que o atendimento fora da capital melhorou com esforços de descentralização, a realidade de comunidades como a do povo indígena Nivaclé, no Chaco, ainda é de extrema vulnerabilidade, onde a sobrevivência pode depender da proximidade com centros urbanos.
