Claudia Costin defende a superação do ensino passivo, a valorização dos professores e o combate às desigualdades para preparar os alunos para os desafios do século XXI
Entre avanços que merecem ser comemorados e desafios estruturais que impõem limites ao desenvolvimento do país, a gestão da educação pública no Brasil pode ser analisada com base nos dados do Censo Escolar 2025, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), e da Pnad Contínua Educação 2025, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
No Brasil, 82% dos estudantes estão no ensino público e, entre 2015 e 2025, a educação básica brasileira registrou uma redução nas taxas de abandono escolar, segundo o IBGE. Nos anos finais do ensino fundamental, a taxa caiu de 3,2%, em 2015, para 0,9% em 2025 (uma queda de 2,3 pontos percentuais no período). Já no ensino médio, a taxa atual é de 2,2% - um recuo de 4,6 pontos percentuais ao longo da década, cuja taxa era de 6,8%.
Embora os números apontem para uma melhora na trajetória escolar, a educadora Claudia Costin, presidente do Instituto Singularidades e ex-diretora de educação do Banco Mundial, diz que o país ainda convive com gargalos históricos que comprometem marcos importantes dos anos iniciais, a conclusão da educação básica, o acesso à educação superior e a formação de capital humano qualificado.
Para além disso, a educadora destaca que a consolidação da escola em tempo integral e a busca pela alfabetização na idade certa foram passos corretos, mas ainda há frentes estruturais que exigem evolução no Brasil.
Ao falar ao Diário do Comércio sobre os principais desafios na educação para os próximos anos, Claudia aponta que o próximo governo terá de superar a prática ultrapassada do ensino focado apenas na transmissão passiva de conteúdo, adaptando a sala de aula à era da inteligência artificial (IA) para formar pensadores autônomos.
Ela aponta que, ao analisar o que os diferentes partidos políticos planejam para a área da educação, encontrou diretrizes semelhantes no essencial, com foco na alfabetização e matemática, e diferenças principalmente em pautas ideológicas secundárias, como a questão do homeschooling e das escolas cívico-militares.
A evolução da educação pública brasileira
Ao contrário da percepção comum de que a educação brasileira sofre com constantes rupturas a cada troca de governo, a educadora afirma que as últimas décadas foram marcadas mais por convergências do que por descontinuidades no setor. No entanto, ela alerta que, para acompanhar as transformações tecnológicas e superar um atraso histórico no ensino básico, o próximo presidente precisará "pressionar o acelerador" em reformas estruturais - da formação de professores à expansão da jornada em tempo integral.
Claudia diz que o Brasil fez uma escolha histórica equivocada na década de 1930 ao priorizar o ensino superior em detrimento da educação básica, na tentativa de formar uma "elite iluminada". E diz que, enquanto países europeus e os Estados Unidos já haviam universalizado o acesso ao ensino primário no início do século XX - e a Coreia do Sul alcançou a universalização nos anos 1960 -, o Brasil só garantiu o acesso massivo à escola básica na última década do século XX.
"Essa demorada universalização explica grande parte dos nossos desafios atuais. Cerca de 68% do sucesso escolar de uma criança depende da escolaridade dos seus pais, e vivemos durante muito tempo uma crise de aprendizagem geracional."
Segundo ela, o Brasil viveu uma virada de chave a partir de 2006, com a criação do Todos Pela Educação e a instituição do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Isso porque a mensuração dos resultados deu visibilidade ao aprendizado real, permitindo que a sociedade cobrasse não apenas infraestrutura, mas qualidade de ensino.
Para a educadora, a melhoria no Plano Nacional de Educação (PNE) reflete essa maturidade institucional. O decreto que detalha as prioridades para a educação nos próximos dez anos foi sancionado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em abril deste ano e está em vigor até 2036. Como principal lei que estabelece as diretrizes, metas e estratégias da política educacional brasileira, esta nova versão substitui o plano anterior - que vigorou de 2014 a 2025 com 20 metas - e preenche o vazio regulatório atual do setor, reestruturando a educação nacional por meio de 19 objetivos, 73 metas e 372 estratégias.
Claudia destaca os avanços nos índices, como a taxa de alfabetização de crianças ao final do 2º ano do ensino fundamental, que saltou de 45% (em 2016) para 66% (em 2025), demonstrando que políticas bem estruturadas geram resultados, independentemente do partido no poder. No período analisado, há destaques de bons índices em estados de orientações políticas variadas, como Piauí, Ceará, Paraná e São Paulo.
Ela destaca também o modelo do Ceará, centrado na cooperação do Estado com municípios pequenos, incentivos fiscais via quota-parte do ICMS e foco na alfabetização já na pré-escola, que se tornou referência nacional. Para a ex-diretora do Banco Mundial, o Inep cumpre papel decisivo ao avaliar a aprendizagem a cada dois anos.
Contudo, ela aponta que a matriz de avaliação e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) precisam de revisões periódicas. Nas palavras de Claudia, a BNCC atual padece de uma linguagem excessivamente academicista que dificulta a aplicação direta pelo professor em sala de aula. "Precisamos reformular a formação de professores, superando o excesso de academicismo para conectar, de maneira concreta, a teoria pedagógica à prática do cotidiano escolar."
Ao comparar os indicadores do ensino básico, ela ainda aponta uma defasagem expressiva do Brasil em relação aos padrões internacionais e aos países de referência da OCDE. No investimento por estudante, o Brasil aplica, em média, cerca de um terço do valor alocado pelos países da OCDE.
Essa discrepância reflete-se também na remuneração do docente: enquanto no Brasil os professores recebem menos da metade do salário de profissionais com o mesmo nível de escolaridade, na Finlândia, essa diferença é menor do que 20%, ela diz. “A educação de qualidade custa caro. Como a educação é uma atividade intensiva em pessoas, a maior fatia do orçamento deve ir para remunerações atrativas.”
Para Claudia, a reestruturação da valorização e gestão docente exige transformações profundas nas regras de progressão profissional e na escolha dos gestores escolares. Para tornar a carreira atrativa e eficiente, ela propõe o fim da progressão funcional baseada exclusivamente no tempo de serviço, adotando-se modelos como a "carreira em Y", que permite ao profissional evoluir tanto na regência de classe quanto na gestão pedagógica.
Paralelamente, ela aponta que a seleção de diretores de escola precisa superar tanto os concursos puramente teóricos quanto as indicações de caráter estritamente político. A diretriz recomendada pela especialista combina a avaliação técnica de competências pedagógicas e de gestão com consultas à comunidade escolar, assegurando lideranças capacitadas.
Outro ponto importante a se assegurar, segundo a especialista, é a implantação de contratos unificados de dedicação exclusiva a uma única escola. "É fundamental para conter a alta rotatividade de professores e fortalecer o vínculo com a comunidade escolar."
No combate ao iminente apagão docente, a reforma da formação inicial surge como uma urgência nacional, segundo Claudia. Ela diz que a licenciatura deve assumir um caráter eminentemente profissionalizante, a exemplo da formação em medicina, equilibrando o embasamento teórico com a prática pedagógica desde os primeiros anos acadêmicos, em vez de se limitar ao formato de bacharelado tradicional.
Para Claudia, essa reformulação passa obrigatoriamente pela regulação rigorosa dos cursos de licenciatura a distância (EAD), em geral de baixa qualidade, seguindo experiências como a do Chile, em que a formação inicial presencial é obrigatória.
Outro ponto crítico, segundo a educadora, está nos anos iniciais do ensino fundamental, pois, segundo ela, a formação dos pedagogos precisa ser reformulada para que aprendam a ensinar o raciocínio matemático e o pensamento lógico, superando a mera memorização mecânica de fórmulas.
No âmbito do ensino médio e tecnológico, Claudia diz que o país precisa construir rotas de aprendizado mais flexíveis e conectadas ao ensino superior. A consolidação dos itinerários formativos deveria ser acompanhada pela criação de um ensino técnico permeável, inspirado no modelo sul-coreano. Por essa abordagem, ela exemplifica que o jovem que conclui o ensino técnico e atua no mercado de trabalho ganha facilidades de ingresso e reaproveitamento de créditos em cursos universitários correlatos, sem a necessidade de etapas redundantes de seleção.
Em relação à tecnologia nas salas de aula, diz que o principal desafio atual deslocou-se da infraestrutura básica de conectividade - hoje presente em 74% das escolas brasileiras - para a efetiva capacitação pedagógica dos educadores. Embora o Brasil apresente alta adesão ao uso de ferramentas de inteligência artificial para o planejamento de aulas (54% dos docentes, superando a média de 38% da OCDE), essa inovação digital deve ser equilibrada com práticas presenciais consolidadas.
Para além disso, Claudia diz que a chegada acelerada de novas ferramentas de inteligência artificial às salas de aula expõe um alerta: se a distribuição dessas tecnologias ocorrer de forma desigual, o fosso das disparidades educacionais e sociais brasileiras tende a se aprofundar. "O país precisa desenvolver uma verdadeira obsessão pela equidade para evitar que a inovação vire vetor de exclusão."
Por fim, como diretriz central para o próximo presidente, a educadora defende a ideia de que a jornada escolar diária brasileira permanece curta, variando tipicamente entre 4 e 5 horas, em contraste com a carga de 7 a 9 horas observada nas 40 nações de melhor desempenho no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa).
"A resposta aos avanços tecnológicos e à automação dos postos de trabalho exige a expansão acelerada da escola em tempo integral. Mais do que estender a permanência dos estudantes no ambiente escolar, o objetivo essencial dessa política deve ser a transição de um modelo educacional fundamentado na memorização passiva para um ambiente voltado a ensinar os alunos a pensar criticamente, debater e criar soluções inovadoras."
Nesse cenário, Claudia destaca que o caminho para transformar a educação passa por olhar atentamente para crianças com repertório cultural mais vulnerável, buscando estratégias que enriqueçam suas vivências e impulsionem sua autonomia.
Segundo a educadora, a boa notícia é que as competências socioemocionais podem ser ensinadas e, por isso, devem ter espaço central no currículo escolar. E aponta que, mais do que um compromisso humanístico, o desenvolvimento dessas habilidades prepara crianças e jovens com os recursos intelectuais e emocionais necessários para enfrentar grandes desafios e construir, na prática, uma sociedade justa e igualitária.
"Ao contrário do que várias narrativas têm apresentado, isso não significa tornar o currículo mais fácil, nem ter baixas expectativas de aprendizagem em relação aos estudantes mais pobres. É exatamente o oposto", diz Claudia.
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