A troca de ideias dá lugar aos insultos. As ofensas evoluem para ameaças. Em alguns casos, a escalada termina em agressões físicas e até homicídios. Entre 2016 e 2024, os registros de violência política e eleitoral cresceram 1.113% no Brasil, passando de 46 para 558 ocorrências.

Os dados são de um levantamento das organizações Justiça Global e Terra de Direitos, que monitoram esses episódios desde 2016 e consideram assassinatos, atentados, ameaças, agressões físicas, ofensas e invasões, entre outros.

No ano eleitoral de 2024, considerando o período analisado até 27 de outubro, a frequência média de registros foi de aproximadamente um a cada 15 horas. Desde o início da série histórica, foram registrados 1.583 casos de violência política no país (veja abaixo).

Às vésperas das eleições de 2026, especialistas alertam que o cenário de radicalização compromete o debate público e cria barreiras para a participação dos cidadãos no processo democrático.

O promotor de Justiça Rodrigo López Zilio, coordenador do Gabinete de Assessoramento Eleitoral do Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS), avalia que o ambiente atual é marcado pela perda da capacidade de diálogo entre grupos com posições diferentes.

Coordenador do Gabinete de Assessoramento Eleitoral do MP.

Casos como o assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, em 2018, a facada contra o ex-presidente Jair Bolsonaro no mesmo ano, o homicídio do prefeito de João Dias (RN), Marcelo Oliveira, durante a campanha em 2024, e até o episódio da cadeirada envolvendo Pablo Marçal e José Luiz Datena durante um debate em 2024 ilustram como a violência política pode assumir diferentes formas.

Outro fator que preocupa, segundo o promotor Rodrigo López Zilio, é a infiltração do crime organizado no processo eleitoral. Segundo ele, facções atuam por meio do controle de territórios e da intimidação de eleitores e candidatos, com o objetivo de influenciar a ocupação de cargos públicos.

Ameaças estão entre as situações mais comuns.Bruno Todeschini / Agencia RBS— No momento em que o crime organizado conseguir se infiltrar no Estado por meio de eleições, a gente chega num ponto delicado que pode colocar em risco, inclusive, o próprio Estado Democrático de Direito — afirma.

Em 2024, o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) publicou uma resolução para fortalecer o combate à influência de organizações criminosas no processo eleitoral. Nas eleições municipais daquele ano, casos investigados no Ceará e na Paraíba apontaram suspeitas de atuação de grupos criminosos envolvendo coação de eleitores, financiamento ilícito e dominação de regiões.

Para a advogada Christine Rondon, especialista em Direito Eleitoral, a polarização e a divergência de ideias historicamente fizeram parte da disputa eleitoral brasileira. No entanto, o avanço da intolerância tem mudado a forma como as pessoas participam da vida política.

— Hoje não é mais comum que um filiado ou um militante leve seus filhos para um ato político, porque nós vivemos em um ambiente que de fato tem tido cada vez mais uma radicalização — destaca.

Outro reflexo é o rompimento de laços familiares e sociais devido à polarização política e ao extremismo. Discursos agressivos de lideranças e autoridades são os mais perigosos, segundo a advogada, pois legitimam comportamentos violentos entre apoiadores.

O cientista político da Arko Advice Carlos Borenstein explica que, em um ambiente onde a discussão está muito radicalizada, as partes interessadas buscam tirar vantagem política disso:

Episódio da "cadeirada" de Pablo Marçal contra Datena durante debate em 2024 alertou sobre radicalização.TV Cultura / ReproduçãoMulheres sofrem 60% mais ofensas verbais do que homensEmbora os homens representem a maioria das vítimas de violência política, reflexo da maior presença em cargos eletivos, mulheres sofrem formas específicas de agressão.

O levantamento da Justiça Global e da Terra de Direitos, identificou, no período entre 2022 e 2024, maior incidência de violência verbal e psicológica contra elas e mostra que os ataques também atingem de forma desproporcional pessoas negras.

Desde 2021, a violência política contra a mulher é crime eleitoral. Apesar da previsão legal, Christine Rondon afirma que os ataques continuam atingindo não apenas candidatas e parlamentares, mas também militantes, apoiadoras e dirigentes partidárias, inclusive dentro dos próprios partidos.

— Muitas vezes, essas mulheres desistem de concorrer a cargos públicos porque já sofrem violência dentro da própria estrutura partidária e não conseguem combatê-la ali dentro — afirma.

Na avaliação da advogada, o aumento dos registros também pode refletir maior conscientização e fortalecimento dos canais de denúncia.

O Tribunal Superior Eleitoral mantém iniciativas voltadas ao tema, como a plataforma TSE Mulheres, que reúne dados sobre a participação delas na política, e um guia de segurança digital para candidatas.

A advogada destaca ainda que a violência no ambiente digital tem se tornado mais sofisticada e exige respostas rápidas, especialmente na remoção de conteúdos que atingem, principalmente, a honra e a imagem das mulheres.

Além das medidas de responsabilização e combate aos casos concretos, o promotor Rodrigo López Zilio afirma que o enfrentamento da violência política depende também de uma transformação cultural.

Segundo ele, é preciso recuperar a compreensão de que as eleições representam uma disputa legítima entre diferentes projetos de sociedade.

— É algo que as pessoas têm que aprender com o tempo, é um processo que não se conquista de um dia para o outro — diz Zilio.

"Hoje as pessoas não conseguem ver alguém que está do outro lado do espectro político como um simples adversário em relação a uma competição eleitoral, e acabam encarnando naquela pessoa um inimigo a ser dizimado.RODRIGO LÓPEZ ZILIOCoordenador do Gabinete de Assessoramento Eleitoral do MP."

"As forças que protagonizam a discussão política no Brasil exploram muitos medos. Elas sabem que determinadas pautas ativam medos no inconsciente da população, seja em quem vota à direita ou à esquerda, e lançam mão desses argumentos para fomentar isso, porque isso gera voto.CARLOS BORENSTEINCientista político da Arko Advice."