O processo eleitoral está em curso. É possível perceber mudanças na paisagem das cidades que se adaptam para vivenciar mais um pleito.

São bandeiras, jingles e marcadores territoriais, a exemplo das famosas esquinas que interseccionam grandes avenidas e são percebidas socialmente como a esquina do candidato A, B ou C. Às vezes, a guerra que permanecia fria torna-se flagrante quando acontece de apoiadores dos diferentes candidatos ocuparem o mesmo tempo-espaço. Todavia, a rígida demarcação não se resume ao perímetro urbano.

A eleição de 2018 foi um divisor de águas na história política do Brasil desde a redemocratização, e as fraturas causadas pelo intenso extremismo continuam expostas.

A derrocada civilizatória atingiu os almoços de domingo e as festas de Natal de muitas famílias, que, passados 8 anos, ainda não conseguem restabelecer a arte do diálogo e a convivência harmoniosa com o binômio diferença-igualdade. Isso porque aquele que pensa diferente não é percebido como titular de direitos.

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O resultado prático é uma espécie de permissão e tolerância social com uma espécie de barbárie discursiva que têm como alvo a disseminação de preconceitos e ódio generalizados. A liberdade de expressão e a própria democracia são invocadas como uma espécie de salvo-conduto para a proteção de pseudo-debates que, ao fim e ao cabo, deterioram a própria democracia.

Essa questão produziu no cenário nacional espécies de guetos ideológicos impenetráveis, zonas de conforto fundamentadas em convicções que, uma vez desafiadas, têm como resposta o linchamento moral do oponente (agora visto como inimigo). Tais condutas barram o avanço de pautas urgentes em nosso País.

A pauta da violência contra as mulheres é ilustrativa, quando, por exemplo um político defende que o currículo escolar incorpore uma educação para a igualdade de gênero: antes que sua proposta seja analisada em todos os seus fundamentos, ela é profundamente rechaçada e qualificada como ideologia de gênero e doutrinação.

Impõe-se o silêncio, pela gritaria generalizada, ao passo em que se interditam debates mais profundos, há um veto informal, mas bastante potente, ao ato de pensar, um refluxo deliberado da inteligência.

Parece haver entre muitos políticos uma espécie de consenso envergonhado que transmite ao senso comum a ideia de que a vida e a liberdade das mulheres dependem do encarceramento dos homens. Parece não haver propostas fora do cárcere, do mesmo modo que nos Estados Unidos a questão dos imigrantes é solucionada na construção de um muro. São soluções "simples" para problemas graves.

A intolerância generalizada, da qual o diálogo de surdos é a expressão maior, se degenera em um lugar limítrofe e perigoso no qual pactos sociais alicerçados em consensos mínimos são questionados frontalmente.

Nesse lugar, a dignidade humana é relativizada, os direitos e as políticas públicas que materializam aqueles são vistos como pertencentes a um determinado espectro político-ideológico e, portanto, não podem ser pautados e votados por oponentes.

A figura dos políticos sem projetos é sintomática: eles são em grande quantidade, não dialogam com problemas estruturais, seus "discursos" estão a serviço da promoção do caos e da mentira, o resultado é uma espécie de gaslighting coletivo.

Isso explica porque o Brasil discutiu, há pouco tempo, sobre o direito básico de duas mulheres: uma pessoa em situação de rua deve receber absorvente íntimo? Uma mulher encarcerada deve ter direito a papel higiênico?

A lição é clara: o político sem projeto torna o debate estreito e raivoso, e o Brasil, refém de uma camisa de força que não nos deixa avançar.

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