Nos últimos dias, São Paulo e Rio investigaram casos que foram considerados suspeitos para infecção por ebola, doença que tem se espalhado por regiões da República Democrática do Congo (RDC), Uganda e Congo, neste ano.
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Nos dois casos, os pacientes tinham passado há pouco tempo por países onde há atividade da doença e apresentaram sintomas gerais que poderiam indicar a presença da infecção. As suspeitas, porém, foram descartadas após exames laboratoriais e acompanhamento médico dos pacientes. No caso do Rio, tratava-se de malária. Em SP, meningite.
Apesar dessa movimentação, o médico infectologista, ex-secretário de Saúde de São Paulo e diretor nacional de infectologia da Rede D’Or David Uip acredita que é “pouco provável” a chegada da doença no Brasil. Há alguns motivos, a transmissão dificultada, a falta de conexão direta entre os países em crise e o Brasil, além de não existir qualquer histórico do espraiamento da doença até aqui. Em 2014, por exemplo, São Paulo chegou a identificar três casos suspeitos, mas todos foram descartados.
Ao GLOBO, Uip avaliou a resposta ao caso inicial de São Paulo, lembrou a epidemia de 12 anos atrás (quando era secretário de Saúde de SP) e disse por que não é hora de mexer com o fluxo dos aeroportos.
Existe risco de ebola no Brasil? Estamos sob ameaça?
Eu acho pouco provável a doença vir para o Brasil por alguns motivos. Primeiro, a história que já acontece há alguns anos. Os surtos foram (até aqui) importantes em regiões da África, na República Democrática do Congo e no Zaire, por exemplo, mas começaram e terminaram por ali mesmo, não se expandiram. É curioso, mas isso acontece pela forma de transmissão,que acontece após contato próximo, com paciente na forma aguda, com sintomas. Não é uma transmissão aérea como foi a Covid-19. Em que, ao pegar um avião, em 12 horas (a doença) está em outro continente. A forma de contágio não é simples, é complexa. E, por vezes, ligadas a rituais fúnebres, festivos, onde o hábito faz com que as pessoas fiquem próximas. Vi isso quando trabalhei por 17 anos em Angola e conheci cortejos, casamentos, os enterros, por exemplo.
Os voos. Não há muitos voos diretos de áreas endêmicas e epidêmicas para o Brasil. As portas de entrada seriam Rio de Janeiro e São Paulo, mas quem vem da África Subsaariana são voos intercalados. Acho pouco provável por esses três motivos. O histórico, pela maneira de contágio e pelo transporte (restrito) até o Brasil.
Por que a transmissão parece ser mais difícil do que foi com outras doenças? É algo particular desse vírus?
Essa é uma doença que é transmitida quando o indivíduo tem sintomas. Muitas vezes, esses sintomas caminham de forma grave. Tem um período de incubação de 2 a 21 dias, mas depois que a pessoa apresenta algum sinal da doença ela pode passar para grave muito rapidamente. Então, não é comum que nós brasileiros tenhamos contato com um paciente grave (que tenha conseguido se locomover, viajar, não esteja hospitalizado), com ebola, para que aconteça o contágio.
O que o primeiro caso suspeito, identificado em São Paulo, nos oferece de pistas sobre a vigilância dessa doença no Brasil?
A origem desse paciente de 37 anos não foi clara. Ele veio da República Democrática do Congo, mas não se sabia exatamente onde ele esteve. O que chamou atenção foi a forma clínica grave. Normalmente, o que acontece com esses pacientes é que eles chegam pelas unidades de saúde e depois vão para os hospitais. A rede precisa estar preparada para identificar sintomas e fundamentalmente para observar a epidemiologia. Se vier das regiões endêmicas ou atualmente epidêmicas, tiver essa história, e apresentar minimamente sinais iniciais como dor de cabeça, febre, dor muscular, tem que estar atento. E isso começa já nos cuidados iniciais e no encaminhamento, que é uma coisa muito complicada. Fizemos essa preparação em 2014. Preparamos o Emílio Ribas (instituto de infectologia em São Paulo).
Não, ele está preparado. Estava e segue. Ele passou por uma reforma enorme que está na terceira fase. O Emílio Ribas é e será um dos principais hospitais de infectologia no mundo por tudo que se investiu. É o hospital das grandes epidemias. A porta de entrada do doente grave no sistema. O que aconteceu com esse paciente era o que se esperava. O primeiro caso é sempre complicado. Eu era plantonista do HC quando apareceu o primeiro caso de cólera, todos tomamos um baile. O caso zero é sempre temeroso. Achei, porém, que neste caso suspeito a atitude pública foi adequada. Fez-se a hipótese, teve encaminhamento, e se chegou ao diagnóstico.
Faria sentido uma medida de controle em aeroportos?
Há muita diferença entre a epidemia de ebola atual e aquela de 2014?
Naquele ano, foram milhares de casos e mortes. Então, obviamente alarmou as pessoas. Na época preparamos o Emílio Ribas e as pessoas, fizemos até simulação, estávamos prontos. Não vejo necessidade de alarme agora, ou da população estar assustada. O profissional da saúde, porém, tem que estar preparado. Hoje sou diretor nacional de infectologia da Rede D’Or. São 79 hospitais em 14 estados. Passamos o sábado tomando atitudes. Tanto de divulgação para toda a rede. E na quarta-feira haverá uma reunião com toda a infectologia, emergência e UTI, para prepará-la.
Tanto a rede pública quanto a privada estão prontas para uma eventual chegada da doença ao país?
Em relação à rede privada, eu falo por aquela que eu sou responsável hoje, estamos atentos. Estamos tomando providências. Vejo também que o Emílio Ribas está pronto e o Instituto Adolfo Lutz (o principal laboratório de saúde pública de SP) tem grande competência. A resposta foi rápida. É difícil para o Adolfo Lutz sozinho atender grandes epidemias, como foi a Covid, mas para esse tipo de resposta (em menor escala) ele é imbatível.
O que temos de tratamento para o ebola, ou para proteção contra o vírus?
Existem duas vacinas, mas não servem para a cepa atual. Provavelmente as novas vacinas caminharam para a tecnologia do RNA Mensageiro (de mais rápida adaptação). Os anticorpos monoclonais também estão evoluindo. Eles são um avanço que foi usado no Covid-19 e está progredindo. Para terapêutica viral, num geral, ainda existe pouca coisa.
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