A paixão nacional pela Copa do Mundo, com seus momentos de euforia, tensão e ansiedade, pode trazer riscos significativos para a saúde de indivíduos com condições cardiovasculares preexistentes. A sobrecarga emocional gerada por partidas decisivas, especialmente aquelas que chegam a decisões por pênaltis, pode funcionar como um gatilho para descompensações em pessoas com hipertensão, diabetes, arritmias, colesterol alto, histórico de infarto ou AVC.

Estudos científicos têm investigado essa correlação. Uma pesquisa publicada em 2021 na revista Scientific Reports analisou internações por infarto na Alemanha durante a Copa do Mundo de 2014, realizada no Brasil. Os dados revelaram um número ligeiramente maior de casos de infarto durante o período do torneio em comparação com anos anteriores, embora não tenha sido observada uma elevação geral na mortalidade hospitalar por essa causa.

Outras revisões reforçam a ideia de que jogos intensamente emocionais podem precipitar eventos cardiovasculares em populações vulneráveis. Um estudo sobre a Copa de 2006 na Alemanha, por exemplo, apontou uma incidência 2,7 vezes maior de eventos cardiovasculares em dias de jogos da seleção alemã. Similarmente, a eliminação da Holanda na Eurocopa de 1996 foi associada a um aumento de cerca de 50% na mortalidade cardiovascular e por AVC entre homens do país no dia da partida.

O Professor Dr. Álvaro Avezum, especialista em Cardiologia e diretor de pesquisa do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, explica que o alerta não sugere que assistir a um jogo cause infarto em qualquer pessoa. No entanto, situações de estresse agudo ativam respostas fisiológicas como a liberação de adrenalina, aumento da frequência cardíaca e elevação da pressão arterial. Em indivíduos saudáveis, essas reações são geralmente bem toleradas. Contudo, em pessoas com doença coronariana, hipertensão mal controlada ou predisposição a arritmias, esse esforço adicional pode desencadear intercorrências cardiovasculares, como dor no peito, falta de ar ou arritmias, devido ao aumento da demanda de oxigênio pelo músculo cardíaco.

Para mitigar esses riscos, os especialistas recomendam que pacientes com fatores de risco cardiovascular não abandonem seus cuidados. É fundamental manter a rotina de medicamentos, evitar o consumo excessivo de sal e bebidas alcoólicas, não fumar e manter uma boa hidratação. O acompanhamento da pressão arterial, quando orientado por um médico, também é importante. A Copa do Mundo deve ser vivida com moderação, sem que isso represente uma pausa nos cuidados diários com a saúde.