A energia nuclear emerge como um tema central na agenda de desenvolvimento e segurança energética do Brasil, com representantes da indústria e especialistas defendendo-a como um pilar fundamental para a autonomia e soberania nacional. Em um panorama global caracterizado pela necessidade crescente de fontes de energia estáveis e pela volatilidade nas cadeias de suprimento de petróleo e gás natural, exacerbada por tensões geopolíticas, o Brasil intensifica o debate sobre sua matriz energética. Essa discussão ganhou relevo durante o recente Nuclear Summit, um encontro que reuniu vozes influentes do setor e da academia para debater o futuro da energia nuclear no país.

Durante o evento, especialistas como o professor de relações internacionais Júlio César Rodriguez, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), sublinharam a imperatividade de o Brasil investir na energia nuclear, destacando sua capacidade escalável e o potencial de conferir autonomia tecnológica ao país. Complementando essa visão, Celso Cunha, presidente da Associação Brasileira para Desenvolvimento de Atividades Nucleares (Abdan), enfatizou os “atributos importantes” da fonte nuclear: ser limpa, gerar energia em um espaço compacto, ser altamente eficiente e tecnologicamente avançada. Cunha ressaltou que, mesmo com a abundância de fontes renováveis como eólica e solar no Brasil, a energia nuclear oferece um fornecimento constante, independente de fatores climáticos, posicionando-a como uma “grande solução” para a segurança energética e, potencialmente, para a exportação de combustível nuclear enriquecido, agregando valor significativo à matéria-prima nacional.

Entretanto, a expansão da energia nuclear no Brasil confronta desafios e suscita preocupações. Embora a indústria a classifique como uma energia limpa, ambientalistas manifestam ressalvas quanto à gestão dos resíduos radioativos de alto nível, que exigem armazenamento seguro e definitivo. Atualmente, a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), órgão estatal, está engajada na definição de um reservatório permanente para as pastilhas de urânio utilizadas. Adicionalmente, a Empresa de Participações em Energia Nuclear e Binacional (ENBpar), vinculada ao Ministério de Minas e Energia (MME), busca estratégias para que o Brasil domine integralmente o ciclo do urânio, incluindo a etapa de conversão, que hoje é realizada fora do país. A Indústrias Nucleares do Brasil (INB), uma estatal, já opera a única mina de urânio do país, na Bahia, e a fábrica de enriquecimento no Rio de Janeiro, mantendo o ciclo do urânio sob monopólio estatal e com fins exclusivamente pacíficos.

Atualmente, o Brasil possui duas usinas nucleares em operação, Angra 1 e Angra 2, localizadas no litoral do Rio de Janeiro, que juntas geram 2 gigawatts (GW), capacidade suficiente para abastecer uma grande metrópole. O destino da usina Angra 3, cuja construção está interrompida, permanece em discussão, com o governo ponderando entre a conclusão do projeto – que adicionaria 1,4 GW ao sistema elétrico – e o abandono definitivo, uma decisão que cabe ao Conselho Nacional de Política Energética (CNPE). Levantamentos do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) indicam que os custos de abandonar Angra 3 podem se equiparar ou até superar os necessários para sua finalização. Em um movimento alinhado à transição energética global, o Brasil anunciou recentemente sua adesão à Declaração para Triplicar a Energia Nuclear, iniciativa que visa ampliar a capacidade instalada dessa fonte energética no mundo até 2050, reafirmando o compromisso do país com fontes firmes e limpas na matriz energética de longo prazo.