O governo de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, anunciou na madrugada desta quinta-feira a aplicação de uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, embora com uma lista de produtos isentos da taxa que são importantes para empresas e consumidores americanos. A medida passa a valer no dia 22 deste mês. Entenda, a seguir, em cinco pontos, como começou o tarifaço, os principais argumentos usados pela Casa Branca, a reação do governo Lula e o que vem pela frente.

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A decisão foi tomada após investigação conduzida ao longo de um ano pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. O inquérito tratava de acusações sobre supostas práticas desleais de comércio e apurava se ações do Brasil prejudicariam as empresas americanas.

A ideia de Trump por trás da taxação é retomar a política protecionista com o objetivo de reindustrializar a economia, tentando reacender os empregos nas fábricas e atrair investimentos para o país. Vários países foram taxados desde que ele assumiu a Casa Branca.

Para EUA, 'empresas americanas são restringidas pelo Pix'

A Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil) calcula que a medida deve afetar mais de US$ 11 bilhões em exportações da indústria e do agronegócio, e classificou a decisão como um resultado "muito negativo" para a relação bilateral entre os dois países.

1) Críticas ao Pix, ao mercado de etanol e mais

O relatório final do USTR distribui críticas ao Brasil em seis áreas principais: comércio digital, serviços de pagamento, acordos tarifários, desmatamento, etanol, propriedade intelectual e combate à corrupção. Veja, a seguir, os principais argumentos da Casa Branca para cada um dos pontos.

Pix: o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos é um dos alvos centrais do relatório do USTR, que acusa o Banco Central de favorecer a ferramenta em detrimento de operadoras de cartão americanas, ao limitar as tarifas cobradas por bandeiras estrangeiras. Os EUA classificam a política como "injusta e discriminatória" e apontam conflito de interesse, já que o BC regula e opera o sistema ao mesmo tempo. O governo brasileiro rebate dizendo que o Pix é infraestrutura pública aberta e não discriminatória, e lembra que o Google Pay e uma subsidiária da Visa já operam dentro da plataforma.Tarifas injustas: o governo americano afirma que o Brasil reduziu tarifas para parceiros como México e Índia enquanto mantém taxas mais altas sobre produtos dos EUA. Segundo o USTR, essas alíquotas preferenciais ficam entre 10% e 100% abaixo da tarifa padrão brasileira, e atingem itens agrícolas, veículos, autopeças e químicos. Em 2023, o Brasil importou cerca de US$ 5,5 bilhões nessas condições, sendo US$ 4,6 bilhões do México e US$ 1 bilhão da Índia. Como exemplo, o relatório cita que veículos mexicanos entraram isentos de tarifa, enquanto os produtos americanos equivalentes pagaram entre 14% e 35%.Corrupção: o documento também questiona a atuação brasileira contra suborno e corrupção empresarial. Cita decisões do STF que anularam processos da Lava Jato e aponta renegociações de acordos de leniência consideradas pouco transparentes, além de possíveis conflitos de interesse em decisões judiciais. Para os americanos, essa fragilidade prejudica empresas dos EUA no país e levanta dúvidas sobre o cumprimento de normas internacionais anticorrupção. O relatório ainda usa a queda do Brasil no Índice de Percepção da Corrupção como argumento.Propriedade intelectual: os EUA apontam falhas no combate à pirataria e demora na concessão de patentes. O relatório cita a região da Rua 25 de Março, em São Paulo, como um dos maiores polos de produtos falsificados do país, apesar de operações recentes de fiscalização. Critica também o tempo de análise de pedidos de patente (de até 109 meses para casos biofarmacêuticos no INPI), o que reduziria o período de proteção das invenções.Desmatamento: na área ambiental, o USTR reconhece que o Brasil tem legislação para combater o desmatamento ilegal, mas afirma que o país historicamente falhou em aplicá-la. O documento cita que 91% do desmatamento na Amazônia entre 2023 e 2024 foi ilegal e lembra que 2021 teve o pior índice em 15 anos. Apesar das críticas, dados do MapBiomas mostram que o desmatamento vem caindo. No ano passado, recuou para o menor nível desde 2019 e ficou, pela primeira vez, abaixo da barreira de um milhão de hectares de vegetação perdida.Comércio digital: o relatório acusa tribunais brasileiros de emitir ordens secretas que obrigaram plataformas americanas (como o Twitter) a remover conteúdos políticos, suspender perfis de usuários nos EUA e, em alguns casos, aplicar decisões com alcance global. Segundo o documento, haveria proibição de divulgar essas ordens, além de multas severas e bloqueios de contas bancárias, além do fechamento completo de ao menos um site.

Apesar do tarifaço, a lista de produtos isentos é extensa. Mais de 2.100 itens brasileiros ficaram de fora da nova taxa, incluindo carne bovina, suco de laranja e componentes para aeronaves. Outros itens são açaí e água de coco.

A lista foi ampliada após rodadas de audiências públicas nos Estados Unidos neste mês. O principal argumento acolhido pelo governo americano para que a lista tenha sido ampliada é garantir o abastecimento do mercado interno.

Sem essas isenções, o preço de produtos essenciais para consumidores e indústrias americanas poderia subir e prejudicar o consumo das famílias e os negócios das empresas.

As negociações entre Brasil e Estados Unidos estiveram atravessadas por tensão política desde o início do processo. Em julho de 2025, quando foi aberta a investigação, Trump criticou o fato de o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) ter se tornado réu por tentativa de golpe de Estado e classificou o processo como uma "caça às bruxas".

Bolsonaro foi condenado em setembro e cumpre pena de 27 anos, em prisão domiciliar. O presidente americano também fez referências ao ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, relator de inquéritos que miram o bolsonarismo.

Em julho deste ano, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho de Jair Bolsonaro, chegou a ir aos Estados Unidos participar de uma audiência pública do USTR e enviou um documento ao órgão americano pedindo que a tarifas fossem adidas para depois das eleições brasileiras de outubro, argumentando que a medida daria uma vitória política ao presidente Lula.

Nesta quinta-feira, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, usou as redes sociais para criticar o presidente Lula, dizendo que suas políticas econômicas "são prejudiciais tanto para os americanos quanto para os brasileiros" e que ele "colocou seu próprio ego acima da realização de um acordo". Em resposta, o governo brasileiro atribuiu aos americanos a responsabilidade pelo impasse.

O Brasil afirma ter trabalhado "ininterruptamente" junto ao USTR para demonstrar a falta de razoabilidade da tarifa e tentar encerrar as investigações da Seção 301. Ao longo do processo, autoridades brasileiras tiveram 30 encontros. Nessas conversas, o governo insistiu na tese de que o Pix é patrimônio nacional e referência mundial em infraestrutura pública de pagamentos.

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O Palácio do Planalto disse que "não há justificativa para medidas unilaterais contra o nosso país", citando um superávit acumulado pelos EUA de US$ 424,5 bilhões em bens e serviços com o Brasil nos últimos 15 anos.

Ainda assim, o governo avalia um socorro pontual aos setores mais afetados. O presidente Lula também atribuiu parte da responsabilidade pelo fracasso das negociações à família Bolsonaro e citou a atuação do senador Flávio Bolsonaro junto ao governo americano.

Os Estados Unidos ainda investigam se o Brasil importa produtos fabricados com mão de obra forçada em outros países, o que poderia resultar em uma tarifa adicional de 12,5%. Ou seja, além dos 25% anunciados ontem.

A apuração do USTR envolve 60 países e mira, no caso brasileiro, cinco produtos: alumínio, algodão, eletrônicos, baterias de lítio e tabaco, supostamente comprados entre 2021 e 2025 de nações com práticas trabalhistas questionáveis.

Segundo o argumento americano, essas importações mais baratas geram concorrência desleal com o mercado dos EUA.