A influência dos Estados Unidos na política brasileira é um fenômeno histórico com raízes profundas, que se manifesta de diversas formas ao longo das décadas. Em um cenário eleitoral atual, onde a política externa ganha destaque, é pertinente revisitar os momentos cruciais dessa relação, que por vezes esteve marcada por tensões, mas também por parcerias estratégicas.

A "Política da Boa Vizinhança", implementada pelo governo Franklin D. Roosevelt nos anos 1940, visava expandir a hegemonia americana na América Latina. No Brasil, isso se traduziu em acordos que viabilizaram a construção da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) em troca de alinhamento militar e autorização para bases aéreas, além do envio da Força Expedicionária Brasileira para a Segunda Guerra Mundial.

Durante a Guerra Fria, a interferência americana atingiu um ápice de controvérsia. Documentos desclassificados revelaram o financiamento de grupos políticos e campanhas contrárias ao governo de João Goulart, culminando na articulação para o golpe militar de 1964. A Operação Brother Sam, planejada para apoiar os militares em caso de resistência, demonstra a profundidade do envolvimento americano, que reconheceu prontamente o novo regime e ofereceu apoio financeiro e diplomático.

A relação se manteve próxima nos primeiros anos da ditadura, mas começou a deteriorar-se a partir dos anos 1970, especialmente sob a administração de Jimmy Carter, devido às denúncias de violações de direitos humanos. Décadas depois, a Comissão Nacional da Verdade recebeu documentos que confirmaram o conhecimento das autoridades americanas sobre as práticas de tortura no Brasil.

Nos anos 1990, os EUA defenderam a abertura econômica e o livre comércio com a proposta da Alca, com forte interlocução com o governo FHC. Já nos anos 2000, a política externa brasileira buscou maior independência, com o fortalecimento de blocos como Mercosul e Brics. Um dos pontos de maior desgaste ocorreu em 2013, com a revelação da espionagem da NSA sobre comunicações da presidente Dilma Rousseff, que levou ao cancelamento de uma visita de Estado. Posteriormente, em 2014, a entrega de documentos desclassificados sobre a ditadura militar pelo vice-presidente Joe Biden marcou um gesto de reaproximação.

Mais recentemente, nas eleições de 2022, a atuação americana voltou a ser notada. Diante das dúvidas sobre o sistema eleitoral, integrantes do governo Biden reforçaram publicamente a confiança nas urnas eletrônicas e nas instituições democráticas, sinalizando que uma ruptura teria consequências para a relação bilateral. A rápida o reconhecimento da vitória de Lula pela Casa Branca reforçou a posição dos EUA em defesa do processo democrático brasileiro.