Uma análise detalhada das propostas iniciais apresentadas pelos Estados Unidos para um acordo comercial com o Brasil revela um cenário de exigências unilaterais e pouca reciprocidade. Segundo o especialista Welber Barral, as ofertas americanas, que seguem um padrão similar ao firmado com outros países da América Latina, carecem de contrapartidas significativas para os interesses brasileiros, tornando-as essencialmente "innegociáveis". O setor agrícola é um dos primeiros pontos de atrito, com a demanda pela eliminação de tarifas sobre o etanol dos EUA sem uma concessão equivalente para o açúcar nacional, uma questão que se arrasta há décadas.

No âmbito regulatório, as propostas americanas buscam impedir restrições ao acesso de produtos dos EUA com base em termos como indicações geográficas, o que poderia minar acordos já negociados pelo Mercosul com a União Europeia. Há também a intenção de criar um grupo de trabalho para discutir a estabilidade no comércio de produtos agrícolas, um jargão que, segundo a análise, esconde o objetivo de mitigar a competitividade do agronegócio brasileiro através da padronização de preços de commodities.

O ambiente digital e a indústria também são alvos de exigências americanas. A proposta de moratória permanente de tarifas sobre transmissões eletrônicas ignora a complexa reforma tributária em curso no Brasil e pode impedir o cálculo de efeitos fiscais futuros, além de dar às big techs um poder de veto sobre políticas de inserção digital. Para a indústria, a eliminação de tarifas para produtos químicos, veículos e medicamentos, exclusivamente para os EUA, violaria a cláusula de Nação Mais Favorecida da OMC e exigiria a incorporação de padrões americanos sem reciprocidade, desconsiderando a autonomia das agências regulatórias brasileiras.

A geopolítica se manifesta claramente na questão dos minerais críticos, com a proposta de limitar investimentos de "atores não orientados pelo mercado", um claro eufemismo para restringir o investimento chinês, principal parceiro comercial do Brasil. A análise também aponta exigências sobre transações privadas e preocupações com segurança em tecnologia de comunicações que parecem desconsiderar a autonomia e os interesses nacionais. A contrapartida oferecida pelos EUA resume-se a uma vaga promessa de "reduzir" tarifas sobre produtos brasileiros, um contraste gritante com as exigências impostas ao Brasil.