O governo dos Estados Unidos deve anunciar em junho de 2026 as conclusões preliminares de uma investigação comercial contra o Brasil, iniciada pela gestão do então presidente Donald Trump. Este processo, fundamentado na controversa Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, pode resultar na imposição de novas tarifas sobre uma gama de produtos brasileiros, gerando preocupação em Brasília e no setor privado. O Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) trabalha com o prazo final de 15 de julho para o relatório definitivo, visando antes abrir uma consulta pública para comentários do setor privado sobre as recomendações iniciais.

A investigação sob a Seção 301 foi instaurada em julho de 2025, motivada por uma série de queixas de Washington sobre o que seriam práticas comerciais consideradas injustas por parte do Brasil. Entre os pontos analisados estão o comércio digital, incluindo o sistema de pagamento instantâneo Pix (onde empresas americanas de cartão de crédito alegam tratamento preferencial do Banco Central), tarifas brasileiras sobre importação de etanol, leis anticorrupção, proteção da propriedade intelectual e questões relacionadas ao desmatamento ilegal. Essa ação segue um "tarifaço" imposto por Trump no ano anterior, que elevou sobretaxas em até 50% sobre alguns produtos, justificado como reação a uma "caça às bruxas" contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.

As eventuais sanções decorrentes da Seção 301 representam um risco significativo de danos adicionais à economia brasileira e são consideradas de difícil reversão judicialmente, devido ao respaldo legal mais consolidado nos Estados Unidos. Essas medidas se somariam a outras pressões recentes de Washington sobre a gestão Lula, como a declaração das facções PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas, que, embora distinta, levanta receios sobre o aumento dos custos de compliance e o afastamento de investidores estrangeiros. Interlocutores dos governos e do setor privado brasileiros temem que as conclusões do USTR reforcem a pressão sobre Brasília, especialmente em um cenário de busca por estabilidade econômica.

A condução do processo tem sido marcada por tensões, com o embaixador Jamieson Greer, chefe do USTR, manifestando insatisfação com a forma como o Brasil conduz seu comércio, em particular no impasse da Organização Mundial do Comércio (OMC) sobre a moratória do comércio eletrônico. Embora o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, tenha tido uma reunião virtual com Greer que foi classificada como positiva, o lado brasileiro expressou frustração com a falta de clareza sobre os prazos para resolução de divergências comerciais. A expectativa, considerada mais provável pelos envolvidos, é que as recomendações do USTR proponham a imposição de tarifas, cabendo então a Trump a decisão final sobre sua aplicação.