Manifestações na França cobram mais profissionais e recursos nas escolas, enquanto dados da OCDE permitem comparar o cenário com o Brasil
França registra protestos de estudantes e professores | Reprodução/X/@SBTNews A França registra manifestações de estudantes do ensino médio e de universidades com reivindicações relacionadas à educação. Entre os pedidos estão mais professores para substituir profissionais ausentes, recursos para as escolas e melhorias nas condições de ensino. O movimento ocorre em meio a discussões sobre o orçamento público francês e também envolve outras demandas de servidores.
A situação permite uma comparação com o Brasil a partir de dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). A TALIS 2024 reúne informações fornecidas por professores e diretores sobre remuneração, jornada, contratos e condições de trabalho nos dois países.
No país francês, um professor da Educação Nacional recebeu, em média, € 3.090 líquidos por mês em 2024, valor que representou crescimento real de 4,3% em relação ao ano anterior. Ainda assim, apenas 27% dos docentes franceses disseram estar satisfeitos com o salário na TALIS.
Protesto na França de estudantes e professores (Vídeo: reprodução/Youtube/Jornal da Record)
Já no Brasil, o percentual foi de 22,3%, enquanto a média entre os sistemas participantes da OCDE chegou a 38,7%. O país possui ainda um piso nacional para professores da educação básica pública, fixado em R$ 5.130,63 para 40 horas semanais em 2026.
O piso, porém, não corresponde necessariamente ao salário de todos os docentes, já que a remuneração efetiva varia conforme a rede de ensino, a carreira, a jornada e a situação funcional.
A jornada semanal total declarada por professores em tempo integral dos anos finais do ensino fundamental foi de 38,7 horas na França e 40,3 horas no Brasil. A diferença fica mais evidente quando o tempo é separado por atividade.
Os professores brasileiros informaram 29,2 horas semanais dedicadas ao ensino, contra 20,1 horas entre os franceses. Além disso, a jornada total também aumentou 4,6 horas por semana entre 2018 e 2024, enquanto não houve mudança significativa para os franceses.
Outras tarefas também ocupam parte da rotina. Preparação de aulas, correções e atividades administrativas aparecem com médias diferentes nos dois países, mostrando que uma mesma jornada total pode ser distribuída de maneiras distintas.
Na França, as mudanças nas exigências das autoridades públicas foram citadas por 62% dos professores como fonte de estresse. O excesso de trabalho administrativo apareceu em 58% das respostas, seguido pela adaptação das aulas para estudantes com necessidades educacionais especiais, com 49%.
Para os brasileiros, os fatores mais mencionados foram a responsabilidade pelo desempenho dos alunos (66%), a manutenção da disciplina em sala (64%) e o excesso de correções (60%).
O estresse elevado aparece nos dois sistemas. Em 2024, 18% dos professores franceses e 21% dos brasileiros afirmaram experimentar muito estresse relacionado ao trabalho.
Os contratos também mostram uma diferença importante. No país europeu, 94% dos professores dos anos finais do ensino fundamental tinham contrato permanente em 2024. No Brasil, eram 64%.
Já a parcela classificada pela TALIS como trabalho em regime parcial chegou a 16% na França e 72% no Brasil. A metodologia considera nessa categoria profissionais que trabalham até 90% da jornada integral.
O dado brasileiro não significa necessariamente que esses docentes trabalhem poucas horas. Um professor pode ter mais de um vínculo ou combinar diferentes jornadas. O indicador representa a forma como os profissionais declararam sua carga de trabalho na pesquisa.
A necessidade de substituir professores ausentes está entre os pontos levantados pelos estudantes franceses. O problema também faz parte de uma questão analisada pela OCDE no Education at a Glance 2026: a escassez de docentes em diferentes sistemas educacionais.
A falta de profissionais pode aparecer quando vagas não são preenchidas, quando determinadas disciplinas têm dificuldade para contratar docentes ou quando escolas enfrentam problemas para substituir profissionais afastados.
A comparação mostra, portanto, que para os franceses e brasileiros os desafios relacionados à valorização e às condições de trabalho dos professores, mas apresentam diferenças na remuneração, na distribuição da jornada, nos contratos e nas fontes de estresse. Os indicadores ajudam a contextualizar as manifestações francesas sem tratar os dois sistemas como se fossem iguais.

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