País-destaque deste ano na Hannover Messe, a maior feira industrial do mundo, na cidade de Hanôver, no norte da Alemanha, o Brasil marcou presença nos corredores, nos debates e nos grupos de conversa com a participação de cerca de 800 empresários e executivos representantes de 300 empresas brasileiras, das quais 140 expositoras.

Além do caráter econômico-industrial do evento, o tom da participação brasileira também foi fortemente político, com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele foi recebido pelo chanceler alemão Friedrich Merz em um momento de transformação na geopolítica global e da proximidade da entrada em vigor, ainda que em regime provisório, do acordo comercial Mercosul-União Europeia (UE), prevista para 1º de maio.

Em alta: Em meio a abalo global, Brasil se destaca no radar de investidores internacionaisNa Alemanha: Lula diz que mundo “não pode se curvar” a quem faz guerra pelo Twitter

O alinhamento político com a Alemanha foi destacado diversas vezes como uma vantagem comercial do Brasil. Merz afirmou que “essa proximidade é mais importante do que nunca nestes tempos de tanta mudança na ordem mundial”. O chanceler alemão também disse que fortalecer a “resiliência e a diversificação econômica é uma prioridade máxima” no contexto geopolítico atual.

O balanço feito por executivos de empresas e autoridades foi positivo, com perspectivas favoráveis também diante do papel do Brasil na transição energética – que passa por setores como biocombustíveis e minerais estratégicos.

O mantra de um país com uma das matrizes energéticas mais renováveis do mundo foi reforçado. Mas, para além das oportunidades, no evento também foram abordados os desafios à agenda do Brasil, como a regulação europeia, criticada por Lula, que poderá travar o avanço dos biocombustíveis brasileiros na região.

— O Brasil se mostrou como um país estável e aberto a negociações, como ficou claro nos discursos do presidente Lula. A estabilidade é muito importante para europeus e, especialmente, para os alemães. Além disso, o país se apresentou como uma solução para o cenário de transição energética — disse o presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), Laudemir Müller.

O destaque do Brasil ocorreu em uma edição marcada pela prioridade no uso da inteligência artificial (IA) na indústria, robótica avançada, energia e infraestrutura industrial, ecossistemas de digitalização, inovação e automação.

O presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), Luiz Césio Caetano, participou de todos os cinco dias da feira e afirma ter visto “coisas fantásticas” do que virá de evolução na tecnologia industrial na próxima década:

— Isso é muito rico. E a participação brasileira mostra grande capacidade nossa. Temos agora o acordo entre União Europeia e Mercosul, com forte potencial de negócios. Pelas conversas que tivemos, os alemães também têm essa percepção de que o mercado pode crescer muito com o acordo — disse o presidente da Firjan.

Algumas companhias brasileiras fizeram lançamentos durante a feira. A Weg apresentou a linha W23 Sync+Ultra, um motor elétrico de máxima eficiência com economia de energia de até 40% em algumas aplicações, mais sustentável, usando 29 vezes menos material do que motores tradicionais.

A produtora brasileira de biocombustíveis B8 mostrou o BeVant, um biodiesel de alta performance projetado para substituir 100% o diesel fóssil em motores convencionais, podendo ser utilizado diretamente nos veículos sem a necessidade de adaptações técnicas nos motores ou na infraestrutura atual de abastecimento.

A mineradora Vale e a B8 participaram pela primeira vez da feira alemã, a Weg retomou sua participação, e a Stefanini organizou seu primeiro estande próprio no evento.

— Ao longo dos anos, a feira foi se aproximando cada vez mais das agendas de inovação, de tecnologia e de tendências. Neste contexto, a Weg achou que era um bom momento de voltar para a Hannover Messe. E como o Brasil foi o país-parceiro do evento, a exposição é ainda maior — disse Daniel Marteleto Godinho, diretor de sustentabilidade e relações institucionais da Weg, que tem 67 parques fabris em 18 países, sendo três na Alemanha.

Mais do que a perspectiva de fechar negócios imediatos, afirma Müller, da ApexBrasil, a feira de Hanôver funciona como uma espécie de vitrine das novas tecnologias desenvolvidas pelo país, além de gerar contatos para as companhias e startups nacionais de base tecnológica, que buscam parcerias e investimentos na Alemanha.

Balanço da ApexBrasil aponta que mais de cinco mil pessoas passaram pelos estandes das 140 empresas brasileiras expositoras na Hannover Messe. É um número que, segundo Müller, mostra o tamanho do interesse da indústria alemã pelas soluções industriais apresentadas durante o evento.

— Somos a única mineradora presente aqui na feira. Não tem tecnologia sem mineração. Não tem tecnologia sem minerais críticos, sem cobre, sem níquel, sem cobalto, sem zinco... Só que a mineração não pode servir simplesmente como atividade de extração, ela gera valor e protege.

Os minerais críticos foram tema de vários debates paralelos na feira, e o Brasil se apresentou como player importante por ter a segunda maior reserva do mundo. Como revelou o GLOBO, Brasil e UE criaram uma força-tarefa que tem se reunido mensalmente desde novembro para avançar numa parceria no setor, e já há quatro projetos em avaliação para investimentos europeus, de 56 que foram apresentados. O apoio no desenvolvimento da cadeia de produção local é colocado pelo governo Lula como condição nessa parceria. Do lado europeu, o diretor da Comissão Europeia para América Latina e Caribe, Félix Fernández-Shaw, alertou para a necessidade de investimentos do setor público em apoio ao setor privado.

A preparação para a feira durou cerca de dois anos, e a escolha do Brasil como país-parceiro pela segunda vez (a primeira foi nos anos 1980) sinalizou o interesse dos alemães pelo país, disse Müller, da ApexBrasil.

Com o fim de tarifas sobre 543 produtos brasileiros prevista no acordo Mercosul-UE, entre eles máquinas e equipamentos, a expectativa é que o Brasil amplie substancialmente suas exportações para a região. Além disso, com a presença de empresas europeias no Brasil há muitos anos, a expectativa é que também cresça o investimento direto no país, já que, sem taxas, o "Brasil fica mais barato e passa a ser mais competitivo para investimentos", diz Müller.