Aos 15 anos, Gabriela estava no primeiro ano do ensino médio. Na escola, precisou abandonar o uniforme porque a barriga de grávida já não cabia mais na camiseta. Era a única sem a roupa da escola. A única grávida. Sofria bullying. Teve que parar os estudos. Quando faltavam semanas para o bebê nascer, ainda não tinha enxoval. A mãe foi com ela à loja, “me humilhou, gritou comigo, mas comprou”. Uma semana após o parto, o namorado terminou com ela. A bebê chorava dia e noite sem parar, e o leite materno não a saciava. Bateu a depressão pós-parto.

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— Foram processos muito solitários — lembra Gabriela, que tem 29 anos hoje. — Me estressava muito, perdia a paciência fácil, chorava muito... Não conseguia criar afeto por ela. Queria viver a minha vida, estudar, ter lazer. O pai dela estava lá vivendo horrores e eu trancada dentro de casa, cuidando de uma criança sozinha, sem ter um minuto.

Engravidou em uma das suas primeiras relações sexuais, aos 14 anos. Até sabia que precisava usar preservativo, mas não tinha em casa por medo que os pais encontrassem quando revistavam suas coisas. A comunicação com eles era ruim. E o garoto, de 17 anos, também nunca levava.

— Quando a Laura era bebê, como era uma adolescente, eu não tinha voz. Era sempre “Você já fez besteira, já engravidou”. Então, tudo que saía da minha boca era como se eu não soubesse o que estava fazendo, como se fosse idiota. Tive que me provar enquanto mãe, enquanto ser humano.

Aos 16, fez um curso de fotografia num projeto social que foi o que a fez “sair do buraco”, trazendo um pouco de perspectiva. Mas foi só quando Laura completou 5 anos, que conseguiu terminar o ensino médio.

A história de Gabriela exemplifica como jovens têm seus planos mudados de um dia para o outro com a gravidez. Ela queria estudar, morar fora, viajar. Mas, assim como 61% das meninas que engravidaram precocemente, parou de estudar — contra 33% das que não engravidaram.

Os dados são parte do novo estudo da Plan International, “Marcas do Tempo: Gravidez na Infância ou Adolescência e seus Impactos na Vida de Mulheres no Brasil”, que ouviu mais de 1.500 jovens de 19 a 29 anos em todas as regiões do país. No Brasil, em 2024, 273.213 bebês nasceram de mães com até 19 anos, segundo a Fundação Abrinq, com dados do Ministério da Saúde.

A pesquisa comparou dois grupos de garotas: as que engravidaram na infância ou adolescência e as que não. O resultado mostra que mesmo partindo de contextos parecidos, as jovens que engravidaram nessa fase acumulam desvantagens muito maiores ao longo da vida tanto na saúde quanto na educação, na renda, e no exercício de seus direitos, quando comparadas às jovens que não viveram essa experiência.

O abandono escolar é talvez a face mais evidente desse choque de realidade. Mas, a partir dele, muitos outros surgem na vida delas.

De acordo com a pesquisa, 88% das jovens que engravidaram entre os 15 e 19 anos casaram ou formaram união após a primeira gestação. (Vale lembrar que o casamento civil de menores de 16 anos é proibido por lei.)

A coordenadora de Advocacy e Direitos Sexuais e Reprodutivos da Plan Brasil e responsável pelo estudo, Paula Alegria, alerta como a gravidez cria um efeito em cascata em que uma dimensão vai agravando a outra:

— O casamento funciona culturalmente como uma forma de resolver o estigma da gravidez precoce. Essa é uma dinâmica que ainda persiste: agora que engravidou, vai casar. Mas ao invés de proteger essa menina, estamos expondo-a a mais vulnerabilidades. É a sobrecarga do trabalho de cuidado, não só do filho, mas também da casa e do marido. Há uma desigualdade: à relação de poder de um homem mais velho com uma menina mais nova se soma a dependência econômica. A menina fica cada vez mais restrita em relação à sua própria autonomia, seja para voltar para estudar, seja para encontrar um trabalho.

Mulheres que tiveram filhos muito novas, também têm mais chances de ter mais filhos. O estudo mostra que entre as que engravidaram na adolescência, 48% têm dois ou mais filhos, contra 18% das que não engravidaram nessa fase.

Luiza (nome fictício) tem 17 anos e acabou morando com o pai da filhinha deles, de dois anos. Ele tem 24 anos.

— Na verdade, eu não queria ficar junto, não queria essa responsabilidade, porque gostaria de continuar meus estudos. Sabia que se a gente juntasse, eu teria muitas responsabilidades, cuidar dela, de uma casa, estudar, e também ajudar financeiramente, o que seria bem difícil.

No começo, cada um ficou com sua família, mas ele acabou mudando para a casa em que Luiza mora com os pais. Felizmente, ela conta com a ajuda da mãe, e não parou de estudar.

— Mas é bem difícil. Estou perdendo bastante coisa. Agora, por exemplo, gostaria de ficar com as minhas amigas, fazer coisas diferentes, mas sei que não posso porque tenho as minhas responsabilidades. Então vou levando. Na parte da manhã, limpo a casa e faço o almoço, à tarde vou para a escola e minha mãe fica com a Helena. Eu queria ter filhos, mas pensava em fazer faculdade primeiro, estudar pedagogia, ter a minha casa e, aí sim, filhos.

O estudo mostrou que a maternidade precoce ainda trará novos desafios para Luiza: 83% das jovens que engravidaram na infância ou adolescência já deixaram um trabalho ou perderam oportunidades profissionais por causa do trabalho de cuidado.

Paula Alegria conta que, durante o estudo, os pesquisadores se depararam com algo que não fazia sentido: essas jovens relatavam menos problemas de saúde mental. Para eles, o dado não fazia sentido. Como as meninas que engravidaram precocemente teriam menos questões do que as outras?

— Fomos olhar os dados qualitativos para entender. Percebemos que o que está por trás dos números é a naturalização do sofrimento em termos de saúde mental. Ou seja, essas meninas que engravidam precocemente naturalizaram a ansiedade, a tristeza, o cansaço extremo, como condições que constituem o exercício da maternidade. Não é que elas não sofrem com as questões de saúde mental. Elas naturalizaram esse sofrimento como se isso fosse parte da condição que têm.

Sem identificar o problema, fica mais difícil procurar ajuda e, consequentemente, obter tratamento.

Além disso, a discriminação é uma experiência comum entre a maioria delas: 73% relatam já terem sido discriminadas por causa da gravidez, seja na família, na escola e até nos serviços de saúde.

— Existe uma restrição do acesso aos serviços, às informações de saúde e de direitos reprodutivos. Então temos um problema de prevenção e, depois, punição — avalia Alegria.

O acesso aos direitos acaba sendo negado. O estudo revelou que entre as jovens que engravidaram antes dos 14 anos, idade em que toda gestação segundo a legislação brasileira é decorrente de estupro de vulnerável, 50% não tiveram a possibilidade de interrupção legal da gestação oferecida pelos serviços de saúde. Ou seja, elas nem foram informadas do direito de não continuar com a gravidez.

Se a pesquisa mostra as dificuldades que enfrentam essas adolescentes, traz também um caminho.

Mais de 60% das meninas que engravidaram precocemente não receberam orientações sobre sexualidade, prevenção da gravidez e métodos contraceptivos. Por outro lado, quando havia um diálogo familiar sobre o assunto, só 32% das meninas engravidaram precocemente.

— Os dados provam que tanto as orientações na escola quanto na família são medidas preventivas da prevenção da gravidez na adolescência, contrariando o senso comum de que falar sobre essas questões seria alguma forma de incentivo. Há uma tríplice responsabilidade nessas gestações: a falta de orientação na escola, a falta de diálogo familiar e as dificuldades para atendimento de saúde sexual e reprodutiva nos serviços de saúde — explica Alegria.

É por isso que agora que a pequena Laura está com 13 anos, a mamãe Gabriela adotou uma postura diferente sobre educação sexual daquela que encarou quando adolescente:

— Converso muito com ela, me boto como exemplo mesmo. Tenho conversas muito francas e muito claras com ela. Somos muito parceiras — celebra.