O Brasil figura entre os mercados digitais mais relevantes do mundo, com aproximadamente 185 milhões de usuários de internet, representando 86,9% da população. Somam-se a isso 150 milhões de identidades ativas em redes sociais, ultrapassando 70% dos brasileiros. Enquanto a tecnologia facilita o acesso à informação e serviços, pesquisadores observam um aumento de sinais de hiperconectividade, como a dificuldade em se afastar do celular e a necessidade constante de verificar notificações. Esse fenômeno tem sido associado pela comunidade científica à "ansiedade de desconexão".

Celso Camilo, professor e pesquisador da Universidade Federal de Goiás (UFG) com doutorado em Inteligência Artificial, enfatiza que a discussão deve ir além do tempo de tela. Ele destaca o uso de tecnologias cada vez mais sofisticadas pelas plataformas digitais para reter a atenção dos usuários. "Hoje existe uma assimetria muito grande entre o poder tecnológico de engajamento e a capacidade das pessoas de compreenderem o processo e os impactos desse uso equivocado", afirma Camilo, ressaltando que a dependência digital transcende o comportamento individual, tornando-se uma questão de saúde pública, educação e desenvolvimento tecnológico.

O cenário atual de preocupações com sintomas como dificuldade de concentração, redução da produtividade, alterações de humor, sono prejudicado e impactos nos relacionamentos pessoais é agravado pelo excesso de estímulos digitais. Os algoritmos de inteligência artificial, responsáveis por organizar conteúdos e personalizar experiências, embora visem aumentar a relevância das plataformas, podem criar um ambiente de estímulo constante e de difícil abandono. "Vivemos em um mundo Figital, a integração do físico com o digital, e isso cria desafios importantes para as pessoas. Não existe mais uma separação clara entre esses mundos, a nossa vida acontece nas duas dimensões ao mesmo tempo", explica o pesquisador.

Em resposta a esses desafios, pesquisadores de diversas áreas criaram o projeto "Mente Figital". A iniciativa visa discutir os impactos da hiperconectividade através de conteúdos acessíveis ao público geral, traduzindo descobertas científicas. O projeto foca na prevenção e conscientização, buscando também oferecer acolhimento e apoio a indivíduos que podem estar desenvolvendo dependência digital ou desgaste psicológico. O plano inclui um podcast com especialistas e, futuramente, ferramentas de autoavaliação para ajudar os usuários a identificar sinais de risco. O objetivo final é compreender como a tecnologia influencia comportamentos e como utilizá-la de forma mais consciente em uma sociedade cada vez mais conectada.