O uso de inteligência artificial (IA) para manipular imagens de rostos, simulando resultados de procedimentos estéticos, tem se tornado uma nova tendência, levantando preocupações entre especialistas. Ferramentas de IA generativa são capazes de criar imagens altamente realistas a partir de fotografias, alterando feições e apresentando simulações de diferentes estilos ou possíveis resultados de intervenções cirúrgicas.
No entanto, a Dra. Flávia Bonato, cirurgiã plástica e membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), ressalta que essas imagens, embora convincentes, não devem ser interpretadas como previsões médicas ou garantias de resultados. "Embora essas imagens não representem previsões médicas e tampouco possam antecipar com fidelidade o resultado de uma cirurgia plástica, elas podem transmitir uma impressão de precisão que não corresponde à realidade", explica a especialista.
A percepção do usuário é um fator crucial nessa diferença. Ao contrário de filtros digitais, que são claramente entendidos como efeitos visuais, as imagens geradas por IA podem parecer tão reais a ponto de criar a ilusão de um resultado alcançável ou até assegurado. "Esse é um risco importante, porque cirurgia plástica não funciona como uma edição de imagem", alerta a Dra. Bonato.
Ela enfatiza que mesmo softwares médicos utilizados para planejamento cirúrgico possuem limitações e devem ser apresentados como recursos educativos, não como promessas de resultado. A decisão por uma cirurgia plástica envolve uma avaliação clínica complexa, que a IA não pode replicar, como a análise de condições de saúde, limitações técnicas e o processo de cicatrização individual.
Apesar dos riscos associados à interpretação de imagens geradas artificialmente como previsões, a IA tem um papel valioso na medicina. Ferramentas de IA podem auxiliar na organização de informações, na educação de pacientes, na produção de conteúdo informativo e até no avanço de pesquisas científicas, além de otimizar processos e analisar imagens em algumas especialidades. O ponto de atenção reside na interpretação dessas simulações como resultados concretos de procedimentos estéticos, o que pode gerar expectativas equivocadas.
