A projeção do Fundo Monetário Internacional (FMI) que coloca o Brasil novamente no oitavo lugar do ranking de maiores economias do mundo encontra um obstáculo para se concretizar: o ajuste fiscal. Na semana passada o FMI estimou que o Brasil alcançará um Produto Interno Bruto (PIB) nominal de aproximadamente US$ 2,8 trilhões em 2027, superando países como Itália (US$ 2,77 trilhões) e Rússia (US$ 2,68 trilhões). Especialistas consultados pela Forbes indicam que o avanço real da economia depende de sinais concretos dados por Lula de controle das contas públicas.

Segundo Alexandre Chaia, professor de economia do Insper, o cenário ideal para o país alcançar a estimativa do FMI é a combinação de alguns fatores, que se iniciam pelo ajuste fiscal. “A partir do ajuste fiscal e do equilíbrio das contas públicas, abre espaço para o Banco Central reduzir os juros. Reduzindo os juros, abre espaço para o investimento privado. Isso gerará a capacidade produtiva de longo prazo”, detalhou.

O ganho de posições no ranking para o Brasil, a princípio, não está atrelado ao aumento da renda média ou da produtividade, fatores indispensáveis que costumam acompanhar o crescimento dos países. Para o FMI, a economia real brasileira, descontada a inflação, está em desaceleração: caindo de 2,3% em 2025 para 2,2% em 2026 e 1,9% em 2027.

Rodolfo Margato, economista da XP Inc., concorda com o viés de baixa, enquanto a XP espera um crescimento até menor para o PIB. “Na nossa avaliação, o crescimento econômico do ano que vem será inferior ao do ano corrente. Isso reflete, em grande medida, a política monetária ainda contracionista. As projeções do crescimento real do PIB, estão em 1,7% para para este ano, e em torno de 1% para 2027”, analisou.

Sem a ancoragem da dívida pública, os juros continuam altos, o consumo perde força e os investimentos produtivos travam. Lula entra em 2027 com a obrigação de cortar ou otimizar gastos compulsórios se quiser que a economia destrave.

De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), ocupamos a posição 94 em uma escala que mede a produtividade do trabalho entre 184 países avaliados. O trabalhador brasileiro gera, em média, cerca de US$ 21,20 por hora trabalhada. Esse desempenho deixa o Brasil atrás de vizinhos da América Latina como Argentina, Uruguai e Chile.

“A produtividade no Brasil tem sido historicamente baixa nos últimos anos, inclusive também no governo Bolsonaro, no governo Temer. A Produtividade não conseguiu melhorar em nenhum dos governos recentes, então é uma questão histórica brasileira”, diz Sergio Vale, economista-chefe e sócio da MB Associados.

Hoje, o Brasil ocupa o 10° lugar no ranking de maiores economias do mundo e o PIB deve fechar 2026 em US$ 2,655 trilhões, com crescimento em torno de 2,2% segundo o mesmo relatório do FMI.

O salto do PIB nominal do Brasil não vem de eficiência, inovação ou tecnologia, mas sim do crescimento simples ou dos choques temporários do agronegócio e extrativismo. Os especialistas advertem que o resultado pode estar ligado à alta das commodities impulsionada pelos conflitos geopolíticos, especialmente a guerra dos EUA contra o Irã.

Para Fernando Saad Benati, estrategista da Avenue, a diminuição da oferta de petróleo no mundo ajudou nosso país. “Um dos pontos que ajudou muito aqui o Brasil foram as exportações de petróleo. O Brasil exporta muito petróleo e esse petróleo esteve mais caro. Só o acompanhamento do ritmo de preços tende a ser benéfico para o Brasil, porque a gente vai converter maiores receitas em dólar.”

Outro fator que impulsiona a valorização do real frente ao dólar é o alto patamar do juros, que torna atrativo os investimentos internacionais e impulsionam a entrada da moeda americana na bolsa brasileira.Segundo a B3, em 2026 o Brasil recebeu cerca de R$ 45,2 bilhões em investimentos estrangeiros até meados de outubro.

A ultrapassagem sobre a Itália e a Rússia decorre mais do enfraquecimento e das travas estruturais desses dois países do que de uma arrancada da economia brasileira. Nas palavras de Margato, o avanço não esconde a apatia interna. “Mesmo com a desaceleração econômica aqui no Brasil, talvez a gente ultrapassasse sim esses outros países por questões e desafios dessas economias”, afirma.

No caso da economia italiana, que enfrenta há décadas a combinação de produtividade estagnada e envelhecimento populacional, com encolhimento da força de trabalho, a ultrapassagem em dólar não significa que o brasileiro viverá melhor que o italiano.

Para Chaia, a renda média dos países explica o descompasso. “A Itália vai perder posição, mas a população da Itália tem um nível de qualidade de vida melhor do que o da população brasileira. É melhor estar num país de PIB menor com uma renda maior do que estar num país maior com uma renda menor”.

Já no cenário russo, a ultrapassagem é fruto do desgaste provocado pelo conflito militar e pelo isolamento internacional. Sob sanções impostas pelos EUA e com dificuldades de infraestrutura, a Rússia vê seu potencial produtivo cair gradativamente.

Para Benati, a comemoração é mais pela queda dos pares do que pelo avanço brasileiro. “Para mim pareceu muito que quem comemorou, estaria comemorando muito mais uma decadência de Itália e Rússia. A segunda covardia contra a Rússia é a guerra de quase cinco anos que está lá. A gente não está comemorando um crescimento extraordinário do Brasil, ainda estamos abaixo do nível de desenvolvidos”, destaca.

Lula precisará demonstrar um comprometimento com o ajuste das contas internas para estabilizar a trajetória de alta da dívida pública em relação ao PIB. Se não houver, uma das consequências é a perda de credibilidade do Brasil e uma economia estagnada, dependente da volatilidade do câmbio.

O mercado financeiro vai cobrar. “Se nada for feito, nossa avaliação é que pode deteriorar a percepção internacional do Brasil. Estamos falando potencialmente de risco Brasil e de fluxo gringo”, diz Benati.

Na avaliação de Margato, o ritmo fraco de crescimento esperado para os próximos anos só será superado se a gestão fiscal transmitir segurança técnica aos investidores. “É fundamental o ajuste fiscal, é uma sinalização positiva para o PIB e para a economia”, avalia.

O controle das despesas públicas é o ponto de partida para conter o efeito dominó, diz Chaia. “É um ciclo que vai iniciar exatamente pelo ajuste das contas públicas, que tem que ser feito para poder, a partir daí, reduzir juros, atrair capital estrangeiro e investimento produtivo, que vai gerar mais renda”. A melhora na qualidade de vida do brasileiro num futuro próximo depende da capacidade do Estado em otimizar seus gastos e abrir espaço para a economia real girar.