O desenvolvimento da energia nuclear é apontado como um vetor estratégico fundamental para o Brasil alcançar sua autonomia energética e fortalecer a soberania nacional. Em um contexto global marcado pela crescente demanda por fontes de energia estáveis e por um cenário geopolítico volátil que afeta as cadeias de petróleo e gás natural, o consenso entre a indústria e especialistas converge para a importância de dominar essa tecnologia.

Durante o Nuclear Summit, encontro sobre o tema realizado na Casa Firjan, no Rio de Janeiro, a Associação Brasileira para Desenvolvimento de Atividades Nucleares (Abdan) e acadêmicos enfatizaram os múltiplos benefícios. A energia nuclear é descrita como limpa, altamente eficiente, tecnológica e capaz de gerar energia em um espaço físico reduzido. Além disso, sua capacidade de fornecimento constante, independente de fatores climáticos como ventos ou chuvas, confere-lhe uma vantagem crucial em comparação com outras fontes renováveis intermitentes. Proponentes argumentam que dominar o ciclo completo do urânio – da extração ao enriquecimento e desenvolvimento de reatores – eleva o Brasil a um patamar de desenvolvimento industrial, tecnológico e científico de destaque mundial, abrindo inclusive a possibilidade de exportar combustível nuclear, agregando valor aos minérios.

Apesar dos reconhecidos atributos, a energia nuclear enfrenta desafios significativos, especialmente no que tange à gestão dos resíduos radioativos gerados, que requerem armazenamento seguro e definitivo. No Brasil, a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) trabalha na definição de um repositório para as pastilhas de urânio utilizadas. Atualmente, o país opera duas usinas nucleares, Angra 1 e Angra 2, que juntas somam 2 gigawatts (GW) de capacidade. A Empresa de Participações em Energia Nuclear e Binacional (ENBpar), ligada ao Ministério de Minas e Energia (MME), busca caminhos para que o Brasil domine integralmente o ciclo do urânio, incluindo a conversão do yellowcake em hexafluoreto, etapa hoje realizada no exterior.

Um dos pontos cruciais na pauta energética brasileira é a usina Angra 3, cuja construção está interrompida há anos. A obra paralisada gera custos anuais de cerca de R$ 1 bilhão. Um levantamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) indica que o custo de abandono definitivo do projeto pode variar entre R$ 22 bilhões e R$ 26 bilhões, valor que pode superar os R$ 24 bilhões estimados para sua conclusão. A decisão final sobre o futuro de Angra 3, que adicionaria 1,4 GW ao sistema elétrico, cabe ao Conselho Nacional de Política Energética (CNPE).

Nesse cenário, a energia nuclear ganha protagonismo no compromisso do país com a transição energética, visando diminuir a dependência de combustíveis poluentes. Recentemente, o governo brasileiro aderiu à Declaração para Triplicar a Energia Nuclear, uma iniciativa internacional que busca ampliar a capacidade instalada dessa fonte em todo o mundo até 2050, reforçando a visão de que fontes firmes e limpas terão um espaço crescente na matriz energética global, impulsionadas pela urgência climática.